Kenzo acha justo preço do Bom Retiro

Ele diz que ser chique custa pouco em Paris e critica preços do Brasil

Valéria França e Renata Cafardo, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2008 | 00h00

"Acho uma pena que hoje a moda seja igual em todo lugar do mundo", diz o estilista Kenzo Takada, de 68 anos. Famoso no mundo inteiro e uma das principais atrações da São Paulo Fashion Week - onde deu ontem sua primeira palestra -, ele foi convidado pelo Estado para conhecer a moda paulistana. Nos poucos contatos que teve, porém, já adiantou que os preços eram muito altos. Até conhecer a SPFW, ele pouco sabia do mercado nacional. "Moda brasileira para mim era sinônimo de Gisele Bündchen. Sei que ela é uma modelo internacional e as referências de brasilidade se diluíram. Mas era a minha referência." Veja a galeria de fotos e a cobertura online do SPFWLevado ao bairro do Bom Retiro, na região central da capital, na segunda-feira, Kenzo surpreendeu-se com as estampas. Perambulou pela Rua José Paulino e arredores - e até lá foi reconhecido. Quando entrava numa loja, a mulherada cochichava intrigada - e, quando tinha a confirmação de que era o estilista, sacava das bolsas celulares e câmeras.Kenzo não levou nada do Bom Retiro, mas bateu muita perna. Estava curioso. "Toda grande cidade tem um centro de moda popular. Em Paris não é diferente. Só que o de São Paulo parece maior." Ele ficou impressionado com a organização da região, principalmente a das confecções mais novas, pertencentes aos coreanos, entre elas, a Limelight, de moda teen.Usou ali o mesmo blazer chumbo e a mesma pashmina creme no pescoço que concentraram a atenção dos fotógrafos na Bienal do Ibirapuera. "Adoro sair para fazer compras. Mas não faço mais isso em Paris. Não me deixam em paz", diz ele. "Prefiro comprar durante as minhas viagens."ALTOS PREÇOS"Essa calça é Colcci (marca para a qual Gisele Bündchen desfila no domingo)?", perguntou, apontando para um jeans da Limelight. Ao ser informado de que se tratava de outra grife, quis saber o preço. A calça custava R$ 60, um quarto, em média, do valor de um jeans da Colcci. "É um preço justo", disse Kenzo, impressionado com os altos valores das roupas no País.Desenvolvimento tecnológico é uma das razões que as marcas sempre apontam para justificar preços elevados. No caso da Colcci, há ainda outro motivo: Gisele, a garota-propaganda da marca. "Além da top, Kenzo conhece a Colcci porque a grife tem cerca de cem clientes no Japão", diz Alexandre Menegotti, diretor de Moda da grife.Kenzo ficou ainda mais admirado ao saber que uma calça Diesel pode sair por mais de R$ 1 mil. "Em Paris, Diesel é barata. Não é preciso pagar muito para ficar chique." O estilista reclamou que, na semana passada, antes de embarcar para a Amazônia, onde ficou quatro dias, comprou uma bota da Osklen para caminhar e pagou cerca de R$ 1 mil.ESTRATÉGIAA presença de Kenzo nesta edição comemorativa do centenário da imigração japonesa era estratégica. "Ele provocou uma ruptura na moda na década de 70. Antes, os grandes criadores eram europeus. Foi ele quem trouxe o Oriente para as passarelas", diz Paulo Borges, coordenador da SPFW.Nascido em Kyoto, no Japão, o estilista mudou para Paris em 1964, depois de juntar dinheiro trabalhando como desenhista de moldes para uma revista. Na década de 70, quando abriu sua primeira loja, Jungle Jap, costumava ousar no visual. "Uma das roupas que não esqueço é uma com estampa camuflada, que usava com um casaco pink. Acho que estar na moda é justamente isso, conseguir passar uma identidade." Para o Brasil trouxe três malas, mas usa "quase sempre o mesmo par de roupas com algumas variações."

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