L. , de 15, foi abusada na cela, dizem presos à CPI

Segundo eles, 15 mulheres já ficaram com homens no local; corregedora que acusou adolescente é afastada

Carlos Mendes, BELÉM, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Dois presos que ficaram por 24 dias na mesma cela da delegacia de Abaetetuba, no Pará, com a adolescente L., de 15 anos, confirmaram ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Carcerário que ela sofria abuso sexual na carceragem.Eles também revelaram que entre 10 e 15 mulheres chegaram a ficar misturadas com homens na mesma cela. Segundo eles, o fato de homens e mulheres ficarem presos no mesmo local "era comum". L. disse que ficou com mais de 20 e foi obrigada a fazer sexo em troca de comida. O presidente da CPI, deputado Neucimar Fraga (PR-ES), informou que os presos apontaram como responsável pelo abuso sexual o mesmo homem que L. havia acusado em seu depoimento em Belém. O preso, Beto Júnior da Conceição, foi encarcerado por assalto, liberado em 15 dias, preso novamente e solto outra vez num mutirão. Fraga considera importante a localização de Conceição para que ele preste depoimento à CPI.A Comissão convocou 22 pessoas, entre delegados de polícia, representantes do Ministério Público, Defensoria Pública e a juíza Maria Clarice Andrade, que entrou em férias. Anteontem, o Pleno Tribunal de Justiça aprovou relatório da Corregedoria das Comarcas do Interior, que apontou falhas e omissões da juíza no caso da adolescente. O corregedor, Constantino Guerreiro, pediu que ela seja afastada do cargo enquanto durar o processo disciplinar aberto pelo tribunal. "Nós viemos ao Pará com intenção de ouvir várias autoridades e a juíza não está em Belém", criticou Fraga. A direção do Tribunal de Justiça informou que estava tentando localizar a magistrada, que teria viajado para fora do Estado. Se ela for encontrada, o depoimento será tomado na manhã de hoje.CORREGEDORA AFASTADAA corregedora da Polícia Civil paraense, Liane Martins Paulino, foi afastada ontem do comando do inquérito que apura a responsabilidade de delegados e investigadores da delegacia de Abaetetuba, onde L. ficou presa. Liane perdeu o lugar após declarar ao jornal Folha de S. Paulo que a adolescente provocava sexualmente os presos. "Quando ela saía para tomar banho, mexia com os presos, saía andando se exibindo nua. Os presos ficavam irritados com ela, que não criava jeito."Além disso, a corregedora disse que L. precisaria passar por uma avaliação de assistentes sociais e psicólogos para saber por que mentia sobre sua idade, dizendo ter 19 anos. "A todos os delegados, ela se apresentava como maior de idade. Não acredito que eles estejam mentindo. São pessoas que têm formação", disse.A polícia informou que Liane foi afastada para que seja apurada a veracidade de suas declarações ao jornal. O delegado Roberto Queiroz assumirá o inquérito, cujo prazo de conclusão termina na próxima semana.Na semana passada, o chefe da Polícia Civil, Raimundo Benassuly, pediu demissão depois de dizer em audiência pública no Senado que a menina era "débil mental".

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