Ladrões roubam 20 cestos de presentes para Iemanjá

O Bairro do Rio Vermelho foi tomado por mais de 40 mil pessoas (na avaliação da Polícia Militar) desde o inicio da manhã deste domingo parahomenagear a rainha das águas, Iemanjá, em seu dia. A grande devoção a uma das divindades mais populares do Candomblé, não impediu que larápios, aproveitando o descuido dos pescadores que organizam a festa, roubassem 20 balaios com presentes para a orixá durante a madrugada.Isso, contudo, não empanou a festa, que culminoucom o tradicional cortejo marítimo dos pescadores para depositar os presentes da mãe d?água num ponto a um quilômetro da costa no final da tarde.O presente principal, ofertado pelos pescadores da Colônia Z-1, foi uma réplica em fibra de vidro do Farol da Barra, segundo eles para ?iluminar o caminho dos governantes, tirando da cabeça deles a guerra e colocando a paz?. O farol foi colocado no Barco Rio Vermelho, que comandou o cortejo a partir das 17h30.A Praia da Paciência, de onde saem as embarcações ficou apinhada de adeptos do Candomblé ao longo do dia. Mães e filhas de santos de vários terreiros da Bahia levaram os atabaques para saudar Iemanjá no seu dia, além de arroz, milho branco (as comidas preferidas da orixá), jóias,perfumes e flores. Tudo preparado com esmero em balaios e cestos decorados com fitas e ornatos.Muitos entravam em transe ao som dos atabaques.Pela manhã, o furto dos balaios foi o assunto que dominou as conversas, porque foi a primeira vez que se tem notícia, em 75 anos de festa, de roubo dos presentes de Iemanjá. Os pertences são colocados em balaios de vime arrumados num barracão instalado nas proximidades da Casa do Peso, sede da colônia dos pescadores do RioVermelho.?Nem só de fé vive o homem, mas também de pão e seus similares?, troçou um turista mineiro, citando uma paródia de Machado de Assis ao saber do roubo, enquanto esperava na fila sua hora de depositar um frasco de perfume oferecido aIemanjá. Ao todo, são cerca de 350 balaios de vime em que baianos e turistas colocam alfazema, perfumes, flores, bijuterias e bilhetes, pedindo e agradecendo graças à orixá.O desfalque dos vinte balaios nem será sentido pela rainha das águas, garantiam os pescadores, que admitiram o erro de não terem colocado um vigia para tomar conta do barracão entre a noite deste sábado e a madrugada deste domingo, o que sempre fizeram nas festas passadas.Criada pelos pescadores na última década de 20, para agradar à rainha das águas devido à falta de peixes no mar do Rio Vermelho, a festa do presente acabou sendo adotada por toda a cidade e transformou-se numa das mais populares do verão baiano.Era realizada em conjunto com a Paróquia do Rio Vermelho num sincretismo típico da Bahia. Pela manhã, os pescadores celebravam missa em louvor a Nossa Senhora Santana e, à tarde, levavam o presente para Iemanjá. Contudo, um vigário vetusto, na década de 60, fez violenta homilia contra o sincretismo, chamando os pescadores de?ignorantes? por cultuar uma mulher com rabo de peixe.A partir de então houve uma cisão, e os pescadores decidiram homenagear apenas a orixá. Por causa disso. a Igreja do Rio Vermelho fica fechada no dia 2 de fevereiro.

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