GOVERNO DO ESPÍRITO SANTO
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Colatina já prepara caixas d'água públicas para chegada de lama

O município capixaba com 120 mil habitantes, um dos maiores no trajeto do Rio Doce, programa suspender a captação de água

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

17 Novembro 2015 | 17h10

Atualizada às 18h07

COLATINA (ES) - A lama de rejeitos proveniente do rompimento das barragens em Mariana, em Minas, deve chegar à cidade de Colatina, no Espírito Santo, nesta quarta-feira, 18. O município capixaba com 120 mil habitantes, um dos maiores no trajeto do Rio Doce até o mar, programa suspender a captação de água e adotar fontes alternativas de abastecimento. Ainda nesta terça-feira, 17, 44 caixas d'água de 10 mil litros e sete reservatórios de 5 mil litros estavam sendo posicionados pelos bairros para amenizar os problemas da população assim que houver corte na distribuição regular.

O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) acompanha a situação em tempo real e, em boletim divulgado na tarde desta terça, estimou que em mais dois dias os rejeitos poderão se aproximar do mar ao chegar à cidade de Linhares, onde está a foz do Rio Doce. O CPRM informou que fatores como a deposição dos sedimentos e as chuvas que já caem na região poderão alterar a previsão. 

A velocidade de deslocamento da lama de rejeitos tem sido revista constantemente. Uma primeira estimativa apontava que a poluição chegaria à Colatina na terça-feira da semana passada, o que levou a população a começar a estocar água nos domicílios e adquirir reservatórios maiores. O deslocamento também está suscetível à passagem por hidrelétricas no trajeto, que controlam comportas de barragens no rio. Só há mais uma comporta antes de Colatina, na Usina de Mascarenhas, a cerca de 30 quilômetros do centro da cidade. 

O intervalo entre a primeira previsão e a mais recente estimativa da chegada dos rejeitos deu à prefeitura local a oportunidade de aperfeiçoar o plano emergencial. As caixas d'água deverão ser abastecidas por mais de 50 caminhões-pipa e, com a perfuração de poços artesianos, até 40% do consumo médio da população poderá ser suprido. A execução do plano conta com auxílio de 132 homens do Exército que estão na cidade desde o domingo passado e serão responsáveis pelo monitoramento dos pontos de distribuição. 

"Esse tempo nos ajudou a nos preparar. Se a lama tivesse mesmo chegado na semana passada, não teríamos 20% da preparação que temos hoje. Montamos uma estrutura que conseguirá obter até 130 mil litros diários de uma lagoa próxima, levar à estação de tratamento e distribuir em caixas acessíveis à população e também destinar a pontos prioritários, como escolas e hospitais", disse o prefeito de Colatina, Leonardo Deptulski (PT), ao Estado nesta terça. 

A expectativa do prefeito é em até uma semana voltar a captar no Rio Doce, usando para o tratamento produtos que já estão sendo testados na cidade mineira de Governador Valadares, também afetada pela lama de rejeitos. "Iremos realizar testes diários. Mas, se tudo correr bem, a partir do quinto dia poderemos verificar os resultados dos testes realizados na água. Teremos uma estação de tratamento somente para ficar realizando os testes e verificando quando poderemos retomar a captação", disse.

Desde a segunda-feira passada  - após ter passado sete dias com colapso no abastecimento -, Valadares voltou a captar no Rio Doce e tem retomado parcialmente o fornecimento de água encanada, após enfrentar problemas nas soluções emergenciais oferecidas à população. Filas com espera de até quatro horas chegaram a ser registradas no centro do município durante distribuição de garrafas de 1 litro de água mineral. 

Em Baixo Guandu, município vizinho a Colatina, o clima é de espera. Na manhã desta terça, uma leve chuva caía nas imediações da Ponte Mauá, na divisa com o Estado de Minas, onde alguns moradores da região paravam para observar a situação do rio. Na tarde da segunda-feira passada, eles haviam visto o tom laranja substituir rapidamente a cor usual do Rio Doce. "É como acompanhar uma novela. A gente não sabe o que vai acontecer nem em quanto tempo. Mas acredito que vai demorar para recuperar o rio", disse o empresário Adilson Beraldo Corona, de 48 anos, que observava o movimento da água na ponte. A cidade passou a captar água do Rio Guandu para atendimento emergencial à população. 

A prefeitura de Baixo Guandu informou que suprirá 100% do abastecimento com a retirada de água do Rio Guandu. Uma tubulação de 1,5 quilômetro foi montada ligando o rio à estação de bombeamento e garantirá a pressão da rede. "O tempo que tivemos evitou que aqui virasse um caos quando foi suspensa a captação. Do ponto de vista do abastecimento, estamos tranquilos. O problema que nos assombra agora é a recuperação do rio. Esta lama está matando o rio", disse o prefeito de Baixo Guandu, Neto Barros (PCdoB).

Ele informou que a cidade havia decretado estado de calamidade pública um semana antes de ser atingida pela lama. "Decretamos em razão da estiagem que já estava nos causando um prejuízo estimado na agricultura em R$ 65 milhões. Agora, com todo o prejuízo ao meio ambiente, a situação piora para a pesca e outras atividades do comércio", disse.

Acordo. Imediatamente após a suspensão da captação no Rio Doce, a mineradora Samarco deverá garantir a entrega de 40 litros de água tratada diariamente a cada família das cidades capixabas que serão afetadas pela lama de rejeitos, além de dois litros de água potável. O termo integra o acordo assinado entre a empresa e o Ministério Público Federal do Espírito Santo no início desta semana. Segundo o MPF, o valor deve ser progressivamente aumentado e revisto na próxima sexta-feira. O acordo inclui ainda a contratação de dois laboratórios para coleta e análise da água do Rio Doce. 

 

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