Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

Lama atingiu pousada frequentada por famosos; donos, funcionários e hóspedes estão desaparecidos

Pousada Nova Estância, em Brumadinho, já hospedou artistas como Caetano Veloso e Marcos Veras, que expressaram solidariedade nas redes sociais. Proprietário é fundador de rede de escolas de inglês

Renata Batista, Enviada especial

27 Janeiro 2019 | 18h47
Atualizado 27 Janeiro 2019 | 20h30

BRUMADINHO (MG) - Cristina, Crioula, Jussara, Laís, Robinho, Camila, Heitor, Pâmela, Reinaldo. Esses nomes estão no centro de comentários e preocupações dos moradores de Córrego do Feijão, localidade mais atingida pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Todos trabalhavam na Pousada Fazenda Nova Estância e estão desaparecidos desde que a enxurrada de lama a varreu do local.

Neste domingo, 27, o ambiente era de consternação com o desaparecimento dos amigos, muito conhecidos e queridos no lugarejo. Em relação aos hóspedes, não havia nenhuma informação - nem mesmo nomes.

“Não era horário em que a pousada estivesse cheia”, informou Núbia Maia, que já trabalhou na pousada. Ela explicou que a hora em que chegou a enxurrada de lama era a mesma em que a maioria dos hóspedes está fora, em passeios, ou fazendo seu check-in ou check-out. Assim, é possível que muita gente não estivesse lá quando ocorreu a tragédia.

Entre os desaparecidos estão o proprietário do estabelecimento, o empresário Márcio Mascarenhas, sua mulher, Cleosane Coelho Mascarenhas, e seu filho. Márcio é conhecido por ter fundado a rede Number One de escolas de inglês. O site da instituição informa que o método Number One foi concebido em 1972 e a primeira escola foi aberta em 1973 em Belo Horizonte.           

Pelo Instagram, a administração da pousada confirmou o fato de ter sido atingida pela onda de lama e disse estar comprometida em auxiliar os órgãos na coleta de informações que estejam ao alcance. Na publicação, parentes de desaparecidos pedem a divulgação oficial da lista de hóspedes, o que ainda não ocorreu.

Não há mais nada no lugar da pousada, a não ser lama e restos de árvores destruídas. Por causa do lamaçal, só foi possível chegar a cerca de mil metros do ponto onde ficava a sede da Nova Estância.

O cenário de destruição contrasta com imagens do local anteriores à tragédia, disponíveis na internet. São fotos da piscina, do lago, das suítes, do restaurante, de lojas. O site da fazenda informa que havia 15 quartos, com ar-condicionado. Também oferecia aos hóspedes assistência para excursões. Era comum que hóspedes a usassem como base para visitar o Museu de Inhotim.

“Era uma pousada muito conhecida, que recebia muitos estrangeiros, até artistas. Eles vinham para Inhotim e ficavam lá para conhecer o resto da região", disse a comerciante Maria Marques.

Entre os artistas que se hospedaram no local está Caetano Veloso. Em nota divulgada nas redes sociais, o cantor relembrou a estadia e destacou os impactos causados pela mineração na região. “Quando fui a Brumadinho em 2016 para cantar no Meca Festival, fiquei assustado com o que vi no caminho. O evento era em Inhotim, museu cujo prestígio conhecia de longe. O entorno, no entanto, era deprimente. Os veículos da mineradora com frequência soltavam fumaça preta e ultrapassavam o carro que nos transportava nas estradas não asfaltadas, lançando poeira ou lama. Tudo é muito feio ali”, escreveu.

"A delicadeza das pessoas, o sabor das comidas, a graça da decoração (tudo tão mineiro) da pousada Nova Estância era igualmente contaminada pelo sentimento de desequilíbrio e feiura que a cercava. Já chorei algumas vezes hoje, incontrolavelmente, pensando nas pessoas que conheci lá. E nas tantas que não conheci” acrescentou.

Quem também esteve na pousada foi o ator Marcos Veras. “Em maio de 2018 fui visitar pela primeira vez Inhotim, comemorar com a família o dia das mães e me hospedei em Brumadinho que fica ali perto. Cidade acolhedora e charmosa. E agora descobri que a pousada na qual me hospedei foi completamente destruída pela lama e vitimando pelo menos 20 pessoas que ali estavam”, relembrou. “Fica aqui minha solidariedade às famílias de todas as vítimas e que os responsáveis sejam punidos imediatamente.”

Nas imediações, a aparência é de cidade-fantasma. Mesmo casas que não foram atingidas pela lama estão vazias. Animais - cães, cavalos, galinhas - estão soltos. Funcionários da Cemig trabalhavam para restabelecer uma linha de transmissão de energia derrubada pela torrente de rejeitos. /COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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