Lançamento de livro revive a antiga SP

O saguão do imponente prédio do Banespa, no Centro Velho, foi todo preparado para lembrar a antiga cidade, no lançamento do livro São Paulo de Piratininga: de Pouso de Tropas a Metrópole, ontem à noite. Da música cantada pelos Trovadores Urbanos, que circulavam entre os convidados usando trajes de época, aos móveis e objetos de cobre, até o lampião de gás da entrada. Um realejo tirava a sorte e o lambe-lambe, retratos. Lá fora, a luz amarelada dava um certo tom de nostalgia.Na entrada, dois atores vestidos como os habitantes da cidade no fim do século 19 e início do 20 davam as boas-vindas. Mais de mil pessoas foram ao lançamento e a primeira edição, de 5 mil exemplares, está perto de acabar. Já se planeja nova tiragem. "Fiquei surpreso", disse o jornalista Ruy Mesquita Filho, editor do livro. "A gente sabe que é bom, mas não imagina que tanta gente vá achar o mesmo."Quem foi ao lançamento teve o privilégio de ver a cidade do alto da torre do prédio, no 35.º andar, o que só ocorreu à noite em duas ocasiões anteriormente. E também de ver uma exposição de 40 fotos reproduzidas do livro. "Fizemos no maior formato tecnicamente possível para que o espectador pudesse entrar nos detalhes, na riqueza da São Paulo daquela época", explicou o curador da mostra, Iatã Cannabrava.O jornalista Ruy Mesquita, diretor do Estado, lamentou "o crime" que cometeram com a cidade de não preservar nenhum vestígio do que o livro mostra. "Temos de nos penitenciar por isso, a prova de nossa total e completa imprevidência." Ele contou que ouviu uma entrevista do historiador José Alfredo Vidigal Pontes em que lhe perguntaram por que o livro não traz fotos de outros locais da cidade. "Ora, porque não havia nada além do centro. Ele foi o embrião desse monstro que criamos aqui", disse Ruy Mesquita.Mesquita lembrou que a cidade custou muito a se desenvolver e, numa certa época, o Estado tinha cidades maiores e economicamente mais ativas do que a capital. "A partir do fim da escravatura e do ciclo do café, São Paulo tomou essas proporções", disse. Nascido em 1925, ele lembra que até seus 6, 7 anos a cidade era bastante aprazível. "Essa explosão começou depois da 2.ª Guerra."O diretor do Estado contou que o pai esteve exilado de 1939 a 1943. "Quando ele voltou, me pediu para passear, conhecer a nova cidade. A transformação naquela época foi brutal e, depois disso, não teve mais jeito."Emoção A editora Mary Lou Paris, da Editora Terceiro Nome, responsável pela publicação do livro, com o Grupo Estado e patrocínio do Santander Banespa, contou que está recebendo um "retorno sensacional" de pessoas que nem conhece, via e-mail. "Elas escrevem agradecendo pelo livro que acabaram de comprar. Dizem que é maravilhoso, desperta lembranças, que um dia estiveram em tal lugar com o avô. Relatos assim."O secretário municipal da Cultura, Celso Frateschi, elogiou o projeto: "Reuniram um material maravilhoso, fotos lindas e, numa cidade que tem como cultura pensar sempre para a frente, um trabalho desse tipo serve para nos recolocar no mundo, na nossa história." Antonio Maschio, assessor especial da Secretaria da Cultura do Estado, contou que nasceu em 1947, em São José do Rio Preto, e chegou a São Paulo um dia depois dos festejos do 4.º centenário. "Eu me apaixonei e me casei com esta cidade." Para ele, a descoberta de um acervo tão precioso é muito boa. "O futuro só se faz olhando o passado. E a história desta cidade é esse centro. Não podemos perder esse referencial nunca."O livro reúne uma coleção única, de 270 fotos tiradas entre 1860 e 1930 - justamente quando a cidade se transformou em metrópole -, que faz parte do Acervo Cultural do jornal O Estado de S. Paulo, formado ao longo de quase 130 anos.O jornalista Fernão Lara Mesquita contou que, vendo o livro, teve pela primeira vez uma visão de conjunto da cidade, de como ela era e também de que não sobrou vestígio do que ela foi.O historiador José Alfredo Vidigal Pontes, que escreveu textos e ajudou na identificação das fotografias, também se surpreendeu com o sucesso do livro. "A gente se sensibilizou muito com aquele material, mas não imaginou que as pessoas fossem ter a mesma emoção", disse. "Um dos caminhos da produção cultural é você apresentar às pessoas o próprio passado. É por meio dele que você se entende e vai fazer o futuro melhor", comentou o jornalista Fernando Portela, responsável pelas relações institucionais do projeto. "Esse trabalho é isso: um resgate emocional."

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