‘Laranjas’ na tríplice fronteira garantiam comércio da FDN com Colômbia e Peru

O grupo usou o tráfego fluvial da cidade conhecida como o capital do Alto Solimões para, pelo rio homônimo, carregar a maior parte do seu produto ilegal

Marco Antônio Carvalho, Enviado especial

08 Janeiro 2017 | 03h00

MANAUS - A facção Família do Norte contava com o auxílio de “laranjas” para movimentar alta quantia de dinheiro na tríplice fronteira brasileira com a Colômbia e o Peru, no que é considerada uma das rotas mais importantes para o narcotráfico local e porta de entrada de maconha e cocaína que ia parar até no Ceará. Foi em Tabatinga, cidade a 1.109 quilômetros de Manaus, que a organização montou um dos seus escritórios financeiros e movimentava montas milionárias para adquirir e revender entorpecentes, além de comprar armas potentes para compor o arsenal do bando.

O grupo usou o tráfego fluvial da cidade conhecida como o capital do Alto Solimões para, pelo rio homônimo, carregar a maior parte do seu produto ilegal. Em agências bancárias de Tabatinga, membros da cúpula da FDN pagavam e recebiam por encomendas; aos laranjas que emprestavam os nomes para abertura das contas, que contavam até com empresas de fachada, era pago 4% sobre o valor movimentado. Somente em uma dessas colaborações, a quadrilha pagou R$ 7 milhões por drogas adquiridas em um intervalo de seis meses.

Interceptações feitas pela Polícia Federal realizadas no âmbito da Operação La Muralla, que foi deflagrada em outubro de 2015 mostrou a troca de mensagens em espanhol de membros da FDN com contatos que deixavam a encomenda em Tabatinga. “Amigo dime el valor en dólar voy comprar unos 50 kilos misturado” (sic), mostra uma das mensagens que dá o apelido de “uísque” para se referir a cocaína.

O colombiano Paulo Bernal Lores confessou à Polícia Federal ter “alugado” suas contas para uso da facção, dizendo, porém, desconhecer a origem do dinheiro. Atuando sobretudo em Tabatinga e também na cidade colombiana de Leticia, os criminosos acabaram flagrados por investigadores, que rastrearam as contas e comprovaram depósitos frequentes como movimentação relativa ao tráfico.  

Para o Ministério Público Federal, Lores era, “na verdade, homem de absoluta confiança dos traficantes de entorpecentes da tríplice fronteira e atuava como engrenagem necessária e indispensável à monetização daquela atividade delitiva”, de acordo com o que sustentaram procuradores de Justiça em denúncia oferecida à Justiça sobre o caso. Outros colombianos, peruanos e brasileiros respondem na Justiça pelo envolvimento com a organização criminosa. Foram oferecidas oito denúncias contra mais de 40 acusados de participar do esquema.

Os produtos que atravessavam a fronteira seguiam até Manaus, ou paravam em cidades próximas para facilitar o carregamento e despistar a fiscalização. Uma das bases de armazenamento foi descoberta em Manacapuru, a 100 quilômetros da capital, mas também banhada pelo Solimões.

Disputa. Para o secretário de Segurança Pública do Amazonas, Sérgio Fontes, a disputa que levou ao massacre no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) tem como contexto o tráfico internacional de drogas e a disputa por uma rota importante de aquisição desse material “Por que o que aconteceu foi tão violento, tão grande? Porque Manaus representa a rota. O Brasil não tem produção de coca, já aqui ao lado há 10 mil hectares com produção exclusiva, e tem como principal corredor o Rio Solimões”, explicou ao Estado nesta semana. “Para a facção, dominar essa rota talvez seja mais importante do que dominar o tráfico em uma cidade de dois milhões de habitantes”, completou. 

A dependência do grupo do tráfego fluvial pelo Rio Solimões estava começando a dar a eles dor de cabeça. Isso porque com a intensificação da movimentação de drogas pelas águas, os donos das cargas, além de terem de driblar a polícia, passaram a ser alvos de “piratas”, que roubavam a droga. Se os ataques representavam baixas esporádicas, a atuação policial, entre 2014 e 2015, apreendeu 2,2 toneladas de drogas na rota, além de armas de grosso calibre e até granadas.

Os procuradores sustentam que a investigação demonstrou haver “estreitas conexões” da FDN com as Forças Revolucionárias da Colômbia (Farc) e outras radicadas no Nordeste, principalmente no Ceará, e no Pará. Além disso, a facção também mantinha contato com o braço peruano das Farc por meio do traficante daquele país Nelson Flores Collantes, cuja venda estimada de cocaína por mês era de 400 quilos. As investigações da La Muralla foram as responsáveis por mandar lideranças da FDN flagradas na articulação para o tráfico e execuções para presídios federais, como foi o caso de Gelson Lima Carnaúba, o Mano G, um dos fundadores da organização.  

Para o sociólogo e pesquisador da Universidade Federal do Amazonas Ítalo Lima, o narcotráfico praticado atualmente no Estado do Amazonas já superou há alguns anos uma velha ordem que consistia em um “comércio” familiar. “Delegados dos anos 1980 e 19990 vão falar que esse crime naquela época era algo muito entre familiares, com pequenos vendedores no varejo e sempre ligado ao seu local de moradia”, disse. “Hoje, prevaleceu essa narrativa policial mostrada a partir de investigações de que a situação foi redesenhada por um consórcio do mercado do crime”, completou.

Ele analisa que a situação nos presídios se agravou principalmente de cinco anos para cá, quando as gestões estaduais recrudesceram a repressão policial ao crime, prendendo cada vez mais, com uma produtividade até premiada com bônus pelo Executivo. “Esses investimentos, no entanto, não foram acompanhados por melhorias nas cadeias que viram a população prisional saltar de cerca de 4 mil em 2009 para mais de 10 mil neste ano”, disse Lima.

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