Laudo aponta falha humana como uma das causas da queda do Learjet

Tudo indica que uma distração, somada ao desbalanceamento do combustível, contribuiu para sua queda

Bruno Tavares, de O Estado de S. Paulo,

21 Dezembro 2007 | 21h53

Falha humana pode ter sido a causa da queda do Learjet 35 da Reali Táxi Aéreo sobre casas, na tarde do dia 4 de novembro, matando oito na zona norte da capital. O Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos em São Paulo (Seripa 4) divulgou nesta sexta-feira, 21, relatório preliminar sobre as causas do acidente. O teor de uma das três recomendações de segurança emitidas pelos militares da Aeronáutica confirma rumores surgidos no início das investigações: o piloto Paulo Roberto Montezuma Firmino, de 39 anos, conversou em seu rádio Nextel até minutos antes da decolagem, no Campo de Marte. Tudo indica que essa distração, somada ao desbalanceamento da quantidade de combustível nos tanques do avião, contribuiu para sua queda. Peritos da Aeronáutica também têm evidências de que a tripulação do Learjet não fez o "check list" da aeronave. O procedimento é obrigatório e evita que os pilotos decolem sem verificar o funcionamento dos principais sistemas de comando, como motores, freios e controles direcionais.  Os militares apuraram ainda que o jato foi abastecido com mil litros de querosene, distribuídos igualmente nos tanques das asas. Toda a preparação para o vôo foi feita pelo co-piloto Alberto Soares Júnior, de 24 anos, sem a supervisão de Firmino, que cuidava de assuntos administrativos. A segunda recomendação de segurança adverte os tripulantes justamente para esse tipo de descuido. Soares Júnior era novato e não havia concluído o processo de instrução em vôo. "Os comandantes, notadamente aqueles em função de instrutor", destaca o documento, devem supervisionar "as tarefas incumbidas aos demais tripulantes, de modo a permitir o perfeito acompanhamento de todas as fases do vôo e a conseqüente manutenção de elevada consciência situacional". Antes da decolagem, o co-piloto deu duas partidas nos motores, enquanto o comandante estava fora da cabine. A primeira foi abortada por causa da não indicação de pressão do óleo. Apesar disso, os investigadores descartaram qualquer pane nas turbinas ou problemas de "travamento, disparo ou perda das superfícies de comando". A suspeita inicial era de que uma eventual falha em um dos motores teria provocado a queda, uma vez que as pás internas dos propulsores retiradas dos escombros estavam danificadas de maneiras distintas.  No momento do impacto com as casas, ambos os reversos (freios aerodinâmicos acoplados às turbinas) estavam fechados, ou seja: os pilotos nem tiveram tempo de acioná-los. O relatório preliminar confirma que o avião percorreu a pista do Campo de Marte normalmente. Em seguida, segundo relatos de testemunhas e de controladores de vôo de plantão no dia do acidente, o Learjet começou a se inclinar para a direita, caindo num ângulo de 90 graus. Dúvida Após um mês e meio de investigações, no entanto, algumas dúvidas ainda não foram esclarecidas pelos peritos da Aeronáutica. Apesar de os indícios apontarem para o desbalanceamento da quantidade de combustível nos tanques, não se sabe se ela ocorreu por um erro na operação de abastecimento ou por uma pane nas bombas que transferem querosene de uma asa para a outra. O abastecimento do Learjet requer cuidados especiais. O modelo 35 possui um tanque em cada asa, além de dois reservatórios na ponta delas, chamados de "tip tank". Os pilotos devem verificar se o procedimento foi feito corretamente, observando a indicação dos liquidômetros no painel da cabine.

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