Laudos podem indicar execução no Alemão, diz deputado

Marcas indicam que tiros foram dados à distância de 30 centímetros, aponta perito

Agencia Estado

04 Julho 2007 | 17h30

Três dos 19 mortos durante a maior operação policial no Complexo do Alemão, realizada por 1.350 policiais na última terça-feira, receberam tiros na nuca. Outros cinco foram atingidos a curta distância. As informações são do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, Alessandro Molon (PT), que analisou os laudos do Instituto Médico Legal. "Os laudos podem indicar execução", afirmou Molon. Ele entrega nesta quarta-feira uma representação ao Ministério Público Estadual pedindo acompanhamento desses casos. O deputado disse que fez um "exame cuidadoso" dos laudos. "Segundo os peritos, em cinco mortes foram encontrados ferimentos `envolvidos por tatuagem de pólvora, o que caracteriza curta distância´. Eles não precisam essa distância, mas esses casos precisam ser acompanhados de perto. Os tiros na nuca são ainda mais suspeitos". Molon reuniu-se no início da noite com o subprocurador de Direitos Humanos do MPE, Leonardo Chaves. "Mostrei os laudos, conversamos e ele pediu que eu protocolasse a representação oficialmente hoje", afirmou o deputado. A Secretaria de Segurança informou, por meio de sua Assessoria de Imprensa, que não se pronunciaria sobre o assunto. Nenhum dos assessores de Imprensa da Polícia Civil foi localizado. Tiros a 30 centímetros de distância O perito Mauro Ricart, que foi diretor de Polícia Técnica e do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, explicou que as "tatuagens de pólvora" que os legistas descrevem são os resíduos marcados na pele, que aparecem nos disparos dados a 30, 50 centímetros de distância. Os tiros com a arma encostada na vítima deixam feridas denominadas "boca de mina", porque são irregulares. "É difícil falar se foi ou não execução sem ver o local. É uma execução um tiro a 50 centímetros, com a vítima deitada, sem chance de reação. Mas se a vítima estiver armada, em pé, não foi execução, mas uma reação do policial", afirmou. Já no caso dos tiros na nuca, Ricart disse que a situação "é mais complicada". "O tiro na nuca, a curta distância, é execução", afirmou. As três vítimas mortas com tiros na nuca não tinham "tatuagem de pólvora", informou a assessoria do deputado. Denúncia Representantes das comissões de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), da OAB-RJ e líderes de organizações não governamentais se reuniram nesta terça-feira com o subsecretário de Segurança Pública do Rio, Márcio Derenne, para apresentar as denúncias sobre abusos ocorridos durante a operação policial no Complexo do Alemão no dia 27. A Ouvidoria da Corregedoria Unificada de Polícia foi colocada à disposição da comunidade para receber as denúncias, que vão de execução sumária até invasão de domicílios. "Foi um avanço. Ficou combinado que a Ouvidoria vai ouvir os depoimentos dos moradores nos locais em que se sentirem mais à vontade", declarou o vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, Marcelo Freixo (PSOL). Entre os casos, o mais forte seria o de uma testemunha que presenciou a execução de um homem baleado. O depoimento deve ser tomado em sigilo e as ONGs estudam a inclusão da pessoa no programa de proteção à testemunha. Outro caso abordado foi o do estudante Ivo Urbano, de 17 anos. A família dele afirma que ele estuda na Escola Municipal João Barbalho e não tem ligação com o tráfico de drogas. O rapaz foi ferido em casa por uma bala perdida e levado pela mãe para o Hospital Getúlio Vargas onde foi preso por agentes da Força Nacional de Segurança (FNS), que o acusaram de trocar tiros com a polícia na véspera. Na operação do dia 27, 19 pessoas morreram e pelo menos 9 ficaram feridas. A Polícia Civil divulgou que 11 tinham antecedentes, três eram menores, quatro não tinham passagem pela polícia e um homem ainda não foi identificado oficialmente. Morte Nesta terça-feira, policiais e traficantes voltaram a se enfrentar em dois pontos do Complexo do Alemão. Na Favela da Vila Cruzeiro, na Penha (zona norte), que é unida ao Conjunto de favelas pela Serra da Misericórdia, houve troca de tiros na região conhecida com "Bairro 13". Na Favela da Grota, os bandidos jogaram uma bomba de fabricação caseira nos policiais da FNS, que avançaram em direção à favela e provocaram o recuo dos criminosos. De acordo com o 16º Batalhão de Polícia Militar, não houve feridos. O sargento da PM Washington Luís Gomes Peçanha, do 3º BPM, morreu nesta tarde após uma troca de tiros com traficantes na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio. Segundo a polícia, uma operação estava sendo feita na região para investigar denúncias de que o líder do tráfico de drogas do Complexo do Alemão, Antonio José Ferreira de Souza, o Tota, poderia estar no local. O policial baleado foi levado para o Hospital Salgado Filho, mas já chegou morto ao hospital. Tota não foi encontrado e ninguém foi preso durante a operação.

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