Leilão do século arrecada R$ 1 bi, sem vender Picasso

Acervo de Saint Laurent e Bergé consegue valores recordes por obras de vários artistas; a tela cubista, porém, não alcançou o preço mínimo

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

26 Fevereiro 2009 | 00h00

Quem duvidava da expressão "leilão do século" para designar a venda da coleção pessoal de obras de arte do estilista Yves Saint Laurent e de seu companheiro, Pierre Bergé, mordeu a língua. Nos três dias do evento, encerrado ontem, no Grand Palais, em Paris, o acervo reunido durante meio século pelos dois quebrou todos os recordes nessa área, chegando a 374 milhões (R$ 1,13 bilhão) em ofertas vencedoras. E a obra máxima de toda essa coleção, uma tela cubista de Pablo Picasso, nem chegou a ser vendida. O valor supera os 163 milhões pagos pela dispersão do acervo de colecionador Victor e Sally Ganz, em Nova York, em 1997, até então o maior leilão de um acervo já realizado. O sucesso do evento, realizado pela casa Christie''s France, pôde ser dimensionado menos de três horas depois de iniciado, por meio do preço pago pelas obras do primeiro lote: 206 milhões. Até a noite do terceiro dia, pelo menos 25 recordes haviam sido quebrados. Classificado como "extraordinário" pelo presidente de Christie?s France, François Ricqlès, e de "evento maior" por experts em arte como o americano Pablo Schugurensky, o leilão parou a alta sociedade europeia. A maior parte dos interessados atuou sob anonimato, fazendo lances por enviados especiais ou pelas cem linhas telefônicas disponíveis.O apelo emocional mexeu com os interessados, que disputaram os 1,2 mil convites de cada noite. Entre os agraciados da noite inaugural estavam personalidades, políticos e milionários de toda sorte. No fim de semana, quando o acervo foi aberto ao público no Grand Palais, mais de 20,5 mil visitantes se alinharam em filas de até quatro horas de duração. Para conhecer as 733 obras à venda, eram necessários no mínimo 45 minutos de percurso.Já no primeiro dia, diversas peças superaram valores históricos. O quadro Les Coucous, Tapis Bleu et Rose, de Matisse, foi vendido por 32 milhões - o valor estimado era de 12 milhões a 18 milhões. Até então, o máximo alcançado por um trabalho do modernista havia sido 26,4 milhões. A escultura Madame L.R., do italiano Constantin Brancusi, também superou todas as expectativas. Avaliada entre 15 milhões e 20 milhões, a peça encontrou novo dono por 26 milhões - 5,5 milhões a mais que o máximo até então pago por um de seus exemplares. O terceiro fenômeno da noite foi Belle Haleine - Eau voilette, do artista plástico franco-americano Marcel Duchamp, vendido por 7,9 milhões após disputa acirrada entre dois compradores. Na terça-feira, o apetite dos investidores diminuiu de ritmo, mas não tanto: o valor arrecadado superou os 42 milhões, graças em parte ao sucesso do móvel Estofado aos Dragões, de Eileen Gray, datado da década de 10 e vendido por 21,9 milhões - seu preço havia sido estimado em até 3 milhões. Os recordes foram alcançados sem que a obra mais prestigiada, a tela cubista Instruments de Musique sur un Guéridon, de Pablo Picasso, fosse vendida. O quadro, avaliado entre 25 milhões e 30 milhões, teve como melhor oferta 21 milhões. "Fiz uma venda inestimável, e ainda ganhei um Picasso", brincou Bergé, dizendo-se "nada desapontado". EXPLICAÇÕES"O preço não está deslocado. O que está à venda é raro e valioso. E não há preço para o que é excepcional", justifica Claude Arguttes, diretor da casa de leilões Acuttes. Segundo ele, a conjunção de obras de grande valor artístico e da chancela de prestígio de alguém como Saint Laurent, pode criar uma "aura especial" e agregar até 30% de valor a uma peça.

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