Lembranças do Carlão, 40 anos depois

Luiz Carlos Mesquita nunca se apresentava como diretor ou filho do patrão e, na Redação, era amigo de todos, solidário e brincalhão

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2010 | 00h00

Amigos e contemporâneos de Luiz Carlos Mesquita, o Carlão, que morreu em 28 de agosto de 1970, aos 40 anos de idade, são unânimes ao descrever sua passagem pela Redação de O Estado de S. Paulo e do Jornal da Tarde como um sujeito brincalhão, atencioso e solidário que nunca se apresentava como diretor ou filho do patrão. Seguindo a trilha dos irmãos mais velhos, Julio Neto e Ruy Mesquita, ele estagiou em várias seções, para aprender o ofício, como queria o pai, Julio de Mesquita Filho. Passou pela Internacional e um pouco pela Geral, para em seguida se dedicar mais ao Esporte e ao Turfe, os dois setores de sua preferência. Mais tarde, participou do lançamento e dirigiu a Edição de Esportes, um projeto inovador, que saía às segundas-feiras, quando o Estado não circulava e o JT ainda não existia.

"Sempre com simpatia, não dando mostras de ser chefe, Carlão era amigo de todos e com todos se preocupava", recorda Oliveiros S. Ferreira, então secretário de Redação, reforçando qualitativos e elogios que fazem também o editorialista Robert Appy e o articulista Alberto Tamer, na época redatores da editoria de Economia. "Carlão passava todas as tardes por nossas mesas para saber o que estava acontecendo", disse Tamer. Era uma rotina que se estendia a outras áreas. Queria informações sobre reportagens, mas também pedia notícias das famílias dos repórteres.

César Tácito Lopes Costa, ex-diretor administrativo, relembra com gratidão o que Carlão fez por ele na época. "Sabendo que meu pai precisava voltar do Rio para São Paulo com urgência, por causa de doença grave, Carlão se ofereceu para pedir a um amigo um jatinho, a fim de transportá-lo. Se fosse dele o avião, já seria uma generosidade enorme, mas pedir emprestado a outro, só o imenso coração de meu amigo Luiz Carlos Mesquita podia explicar esse gesto", observa César Costa, atualmente aposentado.

Carlão preocupava-se também com a empresa. "Apesar das divergências que eram notórias entre o Estado e o governo Kubitschek, ele se empenhou e conseguiu resolver o intrincado problema da concessão da Rádio Eldorado do Rio de Janeiro", afirma Oliveiros. "Na Eldorado de São Paulo, à qual se dedicou com amor, foi diretor do jornal noticioso", acrescenta. Segundo Oliveiros, "Carlão assumiu, porque quis, uma chefia informal da Redação e dirigia, com sua bonomia costumeira, a reunião das 15 horas, quando os editores lhe comunicavam o que estava previsto no jornal do dia seguinte".

No início de 1960, Carlão convidou Maria Cecília Vieira de Carvalho Mesquita para dirigir o Suplemento Feminino, que passaria por uma reformulação. "Quero que você venha trabalhar no jornal", convocou a prima pelo telefone. Ela ficou apreensiva, porque "costumava visitar as oficinas gráficas desde criança, mas não entendia nada de jornalismo", e manifestou essa apreensão, conforme revelou em entrevista sobre os 50 anos do Feminino. Carlão insistiu e Cecília assumiu a direção depois de conversar com o redator-chefe, Cláudio Abramo.

Muitas vezes, Carlão tirou dinheiro do bolso para ajudar funcionários em dificuldades que recorriam a ele nos corredores. Ou, em certas circunstâncias, mesmo que não lhe pedissem nada. Foi o que fez em 1967, quando lhe apresentaram Ricardo Kotscho como autor de um dos textos da cobertura da tragédia de Caraguatatuba, arrasada por enchentes e deslizamentos no litoral paulista. Um editor comentou que o repórter, ainda estagiário, não era registrado e não tinha salário fixo. "Meio sem graça, Carlão puxou a carteira e me passou umas notas, que enfiei no bolso sem contar", escreveu Kotscho no livro Do golpe ao Planalto (Companhia das Letras), quase 40 anos depois. "Era um dinheirão, só descobriria ao voltar de ônibus para casa, já de madrugada."

Bichos. Carlão gostava de bichos, como galinhas, canários e cachorros, que costumava criar desde menino na fazenda da família em Louveira, onde passava semanas de férias. Dava notícias da criação para o pai, então exilado em Buenos Aires. Julio de Mesquita Filho, o Doutor Julinho, lhe prometeu "um cachorro daqueles de raça, de orelha grande e cabeça de perdigueiro", como presente de fim de ano, se continuasse "a ser o excelente estudante que até aqui tem sido", como escreveu em carta de 21 de julho de 1940.

Na correspondência com os filhos, Doutor Julinho comentava com eles o avanço da guerra na Europa. Dava e recebia notícias, com base na BBC de Londres, a fonte principal de informações. "Ontem a BBC deu que os alemães vão atacar novamente Stalingrado. Será que Stalingrado cai? That is the question", escreveu Carlão em 27 de outubro de 1942, voltando, na linha seguinte, a dar notícias sobre as galinhas. "Minha criação vai bem. Sem mortes agora."

Anos mais tarde, já trabalhando no jornal, Carlão surpreendeu os companheiros com animais raros e exóticos que mandava comprar ou ganhava de amigos. "Certa vez, eu fui ao Rio buscar, de avião, um cão da raça Yorkshire Terrier que o Carlão deu de presente à sua filha, Patrícia", conta Antonio Carvalho Mendes, o Toninho, ex-colega de ginásio no Liceu Pasteur e, na época, redator do Estado, no qual assinava a coluna Cinofilia.

Foi também para a filha que Carlão conseguiu do diretor do Zoológico, Mário Autuori, um filhote de leão. "Eu cuidava do leão, que morava no Clube São Paulo, passeava com ele e, às vezes, o levava ao jornal", lembra Toninho. O leão, que Carlão batizou com o nome de Eustáquio, morreu logo depois dele, em 1970. Houve também um pinguim e, em seguida, um casal de cisnes negros, presente da Câmara Portuguesa - todos sob os cuidados do amigo no Clube São Paulo. "Nos últimos meses de vida, Carlão estava planejando levar uma zebra para a fazenda de Louveira, mais um presente para Patrícia", revela Toninho.

"Com a morte de Carlão, a Casa perdeu um elo, bem-humorado e sempre amigo de todos, entre a empresa e a Redação", disse Oliveiros, ressaltando a amizade que os uniu. "Foi ele quem, espontaneamente, falou com o pai para que me desse outra oportunidade de escrever editoriais, pois o primeiro, que Doutor Julio havia pedido, não agradou", acrescenta o ex-secretário de Redação.

Alma. Fernando Pedreira, ex-diretor do Estado em São Paulo e da sucursal do jornal no Rio, assina um depoimento sobre Carlão no livro Retrato de uma Redação, publicado em 2002 por Patrícia Mesquita. Ele escreveu:

"O Carlão não era, talvez, a alma do jornal, mas era certamente a alma da Redação, ao menos enquanto estava lá, isto é, quase todo o tempo. Ele tirava férias de dois em dois anos, dois meses inteiros, ia para Paris e para Nova York, e nesses meses a Redação ficava mais triste, mais apagada, mais burocrática, talvez, apesar dos esforços do Julio Neto, do Claudio (Abramo), do Ruy e de nós todos."

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