Lembranças e ''causos'' de um vice-presidente

"JUROS CIVILIZADOS"

, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2011 | 00h00

Em 2005, num encontro no restaurante Piantella com Itamar Franco e Aécio Neves, Alencar discutia seu futuro político (ser vice de Lula ou concorrer ao Senado). Aécio se ofereceu para pagar o jantar, mas Alencar afirmou que fazia questão de pagar. Com a conversa animada, ele acabou se esquecendo de fazer o pagamento. Quando voltou a se encontrar com Marco Aurélio Costa, dono do Piantella, lembrou-se de que deixara aberta a fatura. Pouco tempo depois, mandou a Marco Aurélio um cheque de R$ 727 e um bilhete: "Estimado amigo, com minha cordial visita, passo-lhe às mãos o pagamento de nosso almoço em seu belíssimo Piantella.

Naturalmente que ainda fico devendo sua atenção e os juros. Espero que cobre juros civilizados".

MENSALÃO

A escolha de Alencar para ser candidato a vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 passou por um acerto financeiro, naquele ano, de R$ 10 milhões entre PT e PL, antigo partido do político mineiro. Três anos depois, o acordo foi investigado no escândalo do mensalão e levou à renúncia do então presidente do PL (hoje PR) ao mandato de deputado federal, Valdemar Costa Neto. Os R$ 10 milhões deveriam ser repassados pelo PT ao PL durante a campanha de 2002, mas saiu só no governo Lula. Alencar sempre negou envolvimento na negociação financeira entre os partidos, assim como defendeu Lula no episódio. Os dois participaram da reunião em Brasília, em junho de 2002, que selou o acerto entre PT e PL para o pleito presidencial.

CRISE NA RELAÇÃO

A amizade e a parceria política de uma década do ex-presidente Lula e do ex-vice José Alencar ficaram estremecidas entre junho de 2005 e junho de 2006. Quando veio à tona o escândalo do "mensalão", Lula considerou discreto o apoio público do seu vice e chegou a anunciar nos bastidores o fim da aliança durante a disputa pela reeleição. Lula nunca se queixou abertamente de atitudes de Alencar no auge das denúncias que levaram ao banco dos réus ministros do primeiro mandato e líderes do PT, mas afastou o vice das reuniões estratégicas durante a crise política. O então presidente não escondeu o mal-estar com entrevistas de tom cauteloso do vice, que chegou a aproveitar, em uma delas, para disparar críticas à taxa de juros.

TRONO

Ao assumir o governo em 2003, Lula comprou duas cadeiras ortopédicas vermelhas idênticas, batizadas de "tronos" pelos assessores, uma para ele e outra para Alencar.

VONTADE PRÓPRIA

No final do primeiro ano de mandato, Lula viajou para os EUA e deixou para Alencar a responsabilidade de assinar uma polêmica Medida Provisória que autorizava o plantio de soja transgênica. Na interinidade, Alencar abriu o Planalto para rediscutir o assunto com técnicos e ambientalistas, irritando o presidente.

MEDO

À época em que ocupava a pasta da Fazenda, Antonio Palocci demonstrava preocupação com as viagens de Lula ao exterior. Ele temia que Alencar tivesse um rompante parecido com o do ex-presidente Itamar Franco que ameaçou demitir o então ministro da Justiça, Jarbas Passarinho, durante uma viagem internacional de Collor.

MANIAS

Lula e Alencar tinham hábitos e manias parecidas, como o uso de cigarrilhas e o futebol. O corintiano Lula e o flamenguista Alencar já jogaram uma "pelada" no gramado da Granja do Torto. Alencar usou bermuda e meiões.

MARINA

Alencar era a única voz de destaque no governo que dava aoio à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, nos embates de assuntos do setor com a Casa Civil, comandada por José Dirceu e depois por Dilma Rousseff. A amizade de Alencar e Marinha vinha da época em que os dois eram senadores.

BRIGA DOS JUROS

Lula vivia se queixando das críticas de Alencar à política de juros. O estopim da irritação ocorreu, ainda em 2003, logo após decisão do Copom de manter a taxa Selic em 26,5%. Num gesto raro, o presidente deixou de fazer discurso numa solenidade sobre ferrovias, no Planalto, tamanha a irritação com o vice.

FESTA E ORAÇÃO

Na virada de 2002 para 2003, véspera da primeira posse, Lula e a mulher, Marisa Letícia, chegaram de surpresa numa festa familiar organizada por Alencar no Hotel Nacional, em Brasília. Juntos, os dois rezaram um pai nosso e brindaram o Ano Novo.

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