Levantamento do Iphan aponta 19 mil imóveis em vilas ferroviárias paulistas

"Eu vou dar-lhes um quadro rápido e singello da Nova Louzã, aquela notável colônia que é um dos mais nobres títulos de orgulho para a nossa província. (...)Vimos as novas construcçòes: commodos para tudo - capella, quartéis de casados, dormitórios de solteiros, tulhas, celleiros, macchinas de beneficiar café, olarias, terreiros, poço, lagar, lavanderia, etc., e tudo nas melhores dimensões e tudo aceiado, largo, respirando conforto e aconchego."Entre as cidades de Mogi Guaçu e Pinhal, essa Nova Louzã "notável" só resiste no texto de Francisco Quirino dos Santos, de 11 de setembro de 1879, publicado no Almanach Litterario de São Paulo. A colônia que a reportagem do Estado pode descrever atualmente se resume a uma estação de trem degradada, meia dúzia de imóveis descaracterizados e um ou outro morador que está ali de favor. A mesma situação se repete em Pantaleão, vila ferroviária perto da cidade de Amparo que já foi conhecida por ter entre os moradores um ilustre farmacêutico conhecido como Barbudo, que sempre visitava as fazendas da região montado em sua mula. Hoje, o local parece uma cidade fantasma, com apenas duas residências coloniais de pé (quase enterradas no meio de tanto mato) e um armazém de secos e molhados caindo aos pedaços.Um levantamento inédito realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural do Ministério da Cultura (Iphan) mostra que há cerca de 19 mil imóveis nas vilas ferroviárias de São Paulo - entre residências, vendas, estações e pontes. "Estamos finalizando esse inventário em todo o Brasil para saber o que temos de bens culturais e históricos a serem preservados", diz o arquiteto Cyro Lyra, coordenador de patrimônio ferroviário do Iphan. "Com isso em mãos, saberemos o valor histórico dos imóveis e poderemos procurar parcerias para dar um uso a esses bens."O trabalho ainda está sendo feito em São Paulo pelo químico Ralph Giesbrecht, que desde 1996 pesquisa a história das ferrovias paulistas. Seu "hobby" já resultou em dois livros e um site com 4.300 páginas de informações sobre o que restou das estações (www.estacoesferroviarias.com.br). "Com o fim da rede ferroviária e espólio dos bens, muita coisa se perdeu, infelizmente", diz. "Mas esse inventário do Iphan pode ser o ponto de partida para proteger o que sobrou."

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