Li mandava e-mail a Tuma Júnior com lista de processos

Documentos obtidos durante a investigação da Polícia Federal indicam que pedidos feitos pelo chinês tinham tratamento especial

Rodrigo Rangel, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

O chinês Paulo Li costumava mandar números de processos em tramitação no Ministério da Justiça direto para o e-mail particular do secretário Romeu Tuma Júnior. Suas demandas, indicam os documentos obtidos durante a investigação da Polícia Federal, tinham tratamento especial.

Num dos casos, em e-mail a Tuma Júnior, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Luciano Pestana Barbosa, festeja após atender a mais um pedido do chinês: "É o caso do Paulinho!! Mais um caso resolvido. É nóisssssss!!!!."

A demanda havia sido enviada a Pestana pelo próprio Tuma Júnior, seu superior imediato. A sequência de mensagens revela o empenho do diretor. Num e-mail anterior, enviado a Tuma, ele faz um pedido para facilitar a solução do problema na burocracia da pasta: "Será que ele (Paulinho) poderia digitalizar os documentos e encaminhar?"

As encomendas de Tuma a Li também eram frequentes. Num telefonema em 22 de maio, o secretário pergunta: "Sabe onde tem aquela mala marrom? (...) É igual àquela marrom e bege, sabe, que você levou (...) em Brasília. Tem uma que é preto e cinza. Será que tem?"

Li promete conseguir a mala. Dois dias depois, Tuma, em viagem ao exterior, pede para o chinês saber o preço de uma câmera Sony em São Paulo. "Se aí for mais barato, eu não vou comprar." Ao saber que custa R$ 1.200, autoriza que Li compre.

A relação de Tuma Júnior com Paulo Li levou a PF a propor a abertura de um inquérito específico para investigar indícios de crimes praticados pelo secretário.

Em expedientes internos, os investigadores sugerem haver indícios de advocacia administrativa e prevaricação - o primeiro pelos favores ao chinês e o segundo por não ter adotado providências ao saber das atividades ilegais de Li. O inquérito também investigará indícios de corrupção e tráfico de influência.

Anistia. Os contatos entre os dois indicam, segundo documentos da PF, que o secretário sabia da existência de um mercado ilegal destinado a agenciar processos de anistia de estrangeiros.

Em mensagem datada de 29 de julho, com a anistia já em vigor, Li dá conhecimento ao secretário de um esquema similar ao que, segundo a PF, ele próprio mantinha. "Eles estão cobrando R$ 350 para a realização do agendamento, incluindo taxa e xerox. Os telefonemas revelam que, na comunidade chinesa, Tuma se esforçava para ser reconhecido como responsável pela aprovação da anistia, numa disputa com o deputado William Woo, autor do projeto original.

Diálogos interceptados

27 de julho de 2009

20h16min09s

Por telefone, Tuma Jr. dá satisfação a Paulo Li sobre um dos processos de seu interesse. Trata-se de um pedido de legalização de permanência no Brasil, em trâmite no Ministério da Justiça, de um imigrante chinês. Li aproveita para cobrar de Tuma Jr. providências sobre o andamento de outro procedimento. O secretário afirma que transmitirá a demanda a um de seus subordinados, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério, Luciano Pestana.

Tuma Jr. - Deixa eu te falar: você tinha pedido um negócio pro Luciano de "Uang Hualin Chen Ian".

Paulo Li - Caramba. O que que é isso?

Tuma Jr. - Ah, não sei. Era uma permanência. Já tá publicado já, tá?

Li - Ah, é. Daquele negócio lá (...) Tá bom, tá bom, joia. Que mais?

Tuma Jr. - Publicou dia 16 de julho (...)

Li - Como é que chama o cara? Tuma Jr. - É. Uang Haulin...

(...) Como é que é o nome do Tomas?

Li - Tomas?

Tuma Jr. - É. É Fang "Tche", é isso?

Li - Fang Ze? Fang Ze é o Tomas. Fang Ze. É.

Tuma Jr. - Como é que fala? Como é que escreve? Fang?

Li - É, verificar quando que ele chegou aqui no Brasil. Publicou no (ininteligível) permanente dele. Quinze anos contando aquele data.

Tuma Jr. - Quinze anos de permanência. Tá. Eu vou ver aqui.

Li - Ah, tá bom, tá bom. Você vai ver negócio pra mim, né? Tá bom, então.

Tuma Jr. - Tô vendo tudo já.

Li - Pelo amor de Deus! Porque...

Tuma Jr. - Eu vou passar pro Luciano. Ele vai ver... Vai esclarecer isso aqui.

Li - Esclarecer... E o, e o... Não, não é só esclarecer, né?

25 de julho de 2009

11h05min26s

Tuma Jr. diz a Li que precisa encontrá-lo. Li diz estar com muitos problemas e que também gostaria de falar com o secretário.

Tuma Jr. - Vamos encontrar à noite pra gente conversar e ver como é que tá as coisas.

Paulo Li - P., precisa conversar, viu? Muito problema, precisa conversar.

Tuma Jr. - Quer ir sete e meia?

Li - Sete e meia, tá bom? (...)

Tuma Jr. - Escuta, aquele telefone do Fran chegou, não?

Li - P. que pariu! Chegou uma que não é aquele lá! Chegou preto.

Tuma Jr. - Igual aquele?

Li - Igual aquele lá, mas preto.

Tuma Jr. - É 1.600 também?

Li - Eu trazer pra você ver.

Tuma Jr. - Traz pra mim (sic) ver.

Li - Chegou, mas ninguém tem no Brasil. Ninguém tem. Só esse aqui.

Tuma Jr. - Se for igual, eu troco e dou o meu pra ele. Fica frio.

Li - É, mas não fica bonito. É preto, né caralho!

Tuma Jr. - Deixa eu te falar: lá na Vinte e... lá na Paulista vende aquele jogo Wii? (...)

Tuma Jr. - Dá pra saber quanto é que é? Eu preciso comprar pra Renata mas na Europa tava caro.

Li - Eu vou, vou dar uma passadinha lá pra ver, tá bom?

Tuma Jr. - Tá bom (...) Daí me fala, aí eu já levo o dinheiro pra você.

Li - Tá bom, Tá bom.

Tuma Jr. - Até já, tchau.

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