Liberdade de informar piora no continente

Relatórios de 26 países, apresentados ontem em encontro da SIP nos EUA, revelam crescentes pressões e perigos contra empresas e jornalistas

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2011 | 00h00

A vida da imprensa no Brasil está longe de ser um paraíso, mas a dos vizinhos, pelo continente afora, atravessa um momento ainda mais difícil. Pelos 26 relatórios sobre a situação da imprensa, país por país, lidos ontem na Reunião de Meio de Ano da Sociedad Interamericana de Prensa (SIP), em San Diego, na Califórnia (EUA), a tarefa de buscar notícias e de divulgá-las ficou mais perigosa, para empresas e para profissionais, em toda a América Latina.

Enquanto o representante do Brasil, Paulo de Tarso Nogueira,do Estado, menciona que a mudança de governo "atenuou alguns pontos de tensão entre a alta administração federal e a imprensa", os informes de Argentina, Equador, Colômbia, Paraguai e Venezuela, entre outros, falam de disputas crescentes.

Nesse cenário, nem o governo Obama escapou. Como relatou ao Estado um dos diretores da SIP, Ricardo Trotti, "o texto americano destaca dois sérios desafios vividos pela imprensa americana: a falta de abertura do governo para divulgar informações relevantes e as tentativas de criminalização do WikiLeaks".

Hoje e amanhã os relatórios serão debatidos por várias comissões e, no sábado, será votado um documento final. O informe brasileiro, lido de manhã, começa apontando uma descontração no governo Dilma Rousseff. "Ao contrário do ex-presidente Lula, que com frequência fazia comentários que revelavam sua irritação com a atuação dos meios de comunicação independente", Dilma "não é dada a pronunciamentos polêmicos" e desde a posse vem afirmando "seu compromisso com o respeito à liberdade de imprensa", diz Nogueira.

Feita a ressalva, sucedem-se os problemas. O primeiro deles é a censura judicial que o Estado vem sofrendo há 616 dias - proibido de informar sobre a Operação Boi Barrica. Depois, são abordados, com detalhes, 2 mortes e 11 ataques graves à imprensa.

Sob pressão. "Os textos de quase todos denunciam problemas graves", resume Ricardo Trotti. "O da Argentina detalha a situação vivida por El Clarín, que enfrenta uma disputa com o governo Cristina Kirchner e também o bloqueio de ex-empregados que impediram a circulação do jornal no final da semana". O do Equador adverte para a armadilha do plebiscito que o governo Rafael Corrêa fará no dia 7 de maio. "Nele há dois artigos que autorizam a criação de um conselho federal para fiscalizar a imprensa", adverte Trotti. O do México denuncia a morte, em quatro meses, de três jornalistas. Um quarto está desaparecido.

Em seu discurso de abertura, de manhã, o presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa, Robert Rivard, exortou todos os veículos de comunicação das Américas a "entender e enfrentar melhor as sutilezas dos governos, que hoje recorrem a armas mais sofisticadas para calar a imprensa". No passado, afirmou Rivard, "as ditaduras eram bastante brutas". Atualmente, o jogo é mais sutil: "Os governos se valem de novas armas, como pressão econômica e mudança de normas para legalizar suas exigências e anular garantias."

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