Licitação de manutenção de geradores foi suspensa em outubro

Na época, superintendente do HC alegou custo alto; ao ?Estado?, ele disse que não houve omissão de sua parte

Emilio Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

Documento interno do Hospital das Clínicas (HC) comprova que uma licitação para a manutenção de cabines de energia elétrica (gerador), troca de fiação e substituição de 22 mil litros de óleo usados nesses equipamentos foi suspensa no final de outubro. As cabines citadas no ofício - assinado pelo superintendente do HC, José Manoel Teixeira - estão instaladas nos prédios dos Ambulatórios (local do incêndio na noite de Natal), Instituto Central e Instituto de Radiologia (Inrad). Na época, a alegação do superintendente do HC para o cancelamento das obras foi o alto valor da licitação. Um dos lotes de óleo teria superado o valor em caixa da superintendência para esse tipo de serviço. Técnicos ligados ao HC, ouvidos ontem pelo Estado, garantem que mesmo assim o dinheiro foi destinado para as obras de ampliação do Pronto-Socorro (PS) do Instituto Central por pressão da diretoria. Neste ano, o PS passou a fazer apenas o atendimento de pacientes referenciados pela rede de saúde e instalações devem ser criadas para diminuir o fluxo de macas e de doentes nos corredores. "A licitação era para a manutenção geral nessas três cabines", afirma um funcionário do hospital que não quer se identificar. O superintendente do HC nega omissão de sua parte pelo adiamento das obras. "Esse dinheiro não é para obras, mas sim para serviços", diz. Segundo Teixeira, a maior parte do valor envolvido na licitação era para a filtragem e troca dos 22 mil litros de óleo mineral isolante além da verificação das cargas elétricas nas cabines. O uso do óleo isolante confere estabilidade à rede elétrica, evitando constantes oscilações e eventuais sobrecargas. "A última vez que isso (manutenção) ocorreu foi por volta de 2000 ou 2001", afirma. O tempo médio para que esse processo seja refeito é de cerca de sete a dez anos, completa. Técnico ligado ao HC, no entanto, garantiu ao Estado que o atraso no cronograma do serviço de manutenção foi fundamental para o desencadeamento do incêndio. "Isso acabou parando o processo de manutenção, o serviço de limpeza técnica especializada dos cabos elétricos e principalmente um procedimento chamado termografia, que identifica pontos de aquecimento na rede", explica.Para Teixeira, a falta de manutenção nada tem a ver com as constantes quedas de energia relatadas por funcionários do Prédio dos Ambulatórios. Essa situação seria decorrente de sobrecargas localizadas, conseqüência da ampliação do número de aparelhos ligados à rede, mas que teria sido resolvida.O documento não menciona valores envolvidos no serviço de manutenção. Teixeira diz não se lembrar dessa quantia, mas garante que um levantamento feito por técnicos do HC comprovou que o óleo poderia ser comprado diretamente da Petrobrás por um terço do valor que seria cobrado pela empresa que faria o fornecimento. O nome dessa empresa também não foi revelado pelo superintendente. "Decidimos, então, refazer a licitação", diz. Também procurado pela reportagem, um dos diretores de Administração do HC, a quem o ofício foi enviado, se negou a dar informações. "Isso foi discutido com todas as partes e os engenheiros chegaram à conclusão de que seria possível adiar", garante o superintendente. Questionado sobre a aplicação da verba destinada ao complexo hospitalar pelo governo do Estado, ele afirma que durante o ano os valores necessários para as obras de manutenção, reforma e custeio do HC superam a quantia enviada pela governo estadual. Nessas situações, uma destinação suplementar é feita pela Secretaria da Fazenda. "O HC investiu todo o dinheiro que recebeu." Teixeira também nega que o dinheiro tenha sido deslocado da revisão do sistema elétrico para as obras do pronto-socorro. "Habitualmente conseguimos fazer a realocação de verbas de investimento para serviços, mas nunca o contrário", afirma. ORÇAMENTO 2008O orçamento do HC para 2008 deve ser conhecido na semana que vem, e, baseado nos recursos recebidos pelo hospital em 2007, o Secretário do Estado de Saúde, José Roberto Barradas, não será necessária a readequação do orçamento para a reforma das áreas atingidas pelo incêndio. "O incêndio foi mais fumaça do que fogo. Houve o comprometimento do shaft de eletricidade, que vai ter que ser revisto, mas isso é despesa menor. A própria verba de manutenção do HC pode reparar o dano causado", afirmou. Os primeiros laudos da polícia científica mostram, segundo o secretário, que a estrutura do prédio não foi danificada, portanto os investimentos na reforma não devem passar do previsto. Ele apontou um curto-circuito como a provável causa do início do incêndio. "Estamos achando que foi um curto na fiação que derreteu os dutos condutores de eletricidade e telefone, formando muita fumaça." O HC recebeu no ano passado R$ 700 milhões em repasses do governo estadual, mais R$ 300 milhões do Ministério da Saúde e por atender por convênios. A previsão de Barradas é de que os repasses para o HC continuem por volta de R$ 1 bilhão - cerca de 20% do orçamento da saúde no Estado.COLABOROU PAULO DARCIE

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