Líder de favela estava marcado para morrer

Desaparecido na 6.ª, ele disse que foi ameaçado por PMs, chefes de milícia

Alexandre Rodrigues, RIO, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2012 | 00h00

O líder comunitário Jorge da Silva Siqueira Neto, ex-presidente da Associação de Moradores da Favela da Kelson?s e desaparecido desde sexta-feira, soube em abril que havia um plano para matá-lo. Ele denunciou à polícia os PMs Alexandre Batista, detido ontem (Veja box ao lado), André Luiz Oliveira e Fernando Barcellos como autores desse plano, mas não conseguiu evitar um atentado. O líder comunitário foi baleado e seqüestrado no dia 7, em Rocha Miranda, zona norte do Rio. A polícia investiga se é dele um cadáver posteriormente encontrado na zona oeste, carbonizado. Anteontem, a polícia apontou os cabos Oliveira e Barcellos como suspeitos do desaparecimento. Uma denúncia anônima informou à polícia sobre uma reunião dos dois cabos e de outras pessoas no Conjunto Habitacional Bento Cardoso, na Penha (zona norte), um dia antes do ataque a Siqueira. O local é o mesmo apontado pelo líder comunitário em entrevista ao Estado, em junho, como o cenário da decretação de sua sentença de morte pela milícia que passou a dominar a Kelson?s em novembro. Segundo ele, o grupo paramilitar era liderado pelos três policiais. Siqueira procurou o Estado há três meses para denunciar o suposto desaparecimento de 200 pessoas da Kelson?s - todas supostamente mortas ou expulsas pelo grupo de PMs e "crias" (moradores que aderiram à milícia). Em dois encontros numa praça da zona norte, ele falou de sua expulsão da comunidade e citou nominalmente os PMs como arquitetos de um plano para matá-lo. No dia 5 de abril, contou, o trailer de lanches que tinha na favela foi saqueado. Ao buscar satisfações na associação com dois prepostos dos milicianos, Siqueira recebeu, por telefone, a sentença de expulsão de Batista. O PM, segundo ele, estava de serviço no batalhão de Bangu (14° BPM). "Disse que eu estaria expulso da minha casa e a associação não precisava mais de presidente. Mandou dizer que eu não retornasse mais à comunidade para não sofrer um acidente." O líder comunitário garantiu ainda que um vizinho o informou, no dia seguinte, sobre uma reunião dos policiais no Bento Cardoso. "Eu deveria ser morto por estar incomodando o andamento do trabalho." BENEFÍCIOS Siqueira conhecia bem os policiais que integravam o grupo clandestino que cobrava dos moradores por "segurança" porque foi, durante cinco meses, aliado dos milicianos. Posto na presidência da associação pelos policiais que denunciaria, ele admitiu ao Estado que apoiou a instalação da milícia e recebeu vantagens, incluindo a permissão para explorar depósito de gás e um quiosque de lanches numa praça da favela. O desentendimento dele com a milícia só ocorreu quando os policiais se apropriaram do comércio de gás e da arrecadação da contribuição social da associação (cerca de R$ 5 mil) e interferiram na distribuição de cestas básicas para a comunidade. "Há dois milicianos incumbidos de ir de casa em casa oprimir o morador para que ele vá na associação pagar a mensalidade. Se não pagar, à noite pode receber uma visita inesperada", disse à reportagem. "Eles (os milicianos) continuam com aquele pensamento de que aquilo ali é uma favela, que o inimigo está ali e eles continuam matando aquele povo ali. É isso que acontece hoje lá", ressaltou Siqueira. Ainda durante um dos encontros com a reportagem, ele chegou a dizer que estava sendo seguido pela milícia. "Hoje sou um foragido. Tenho de me esconder para não me executarem." PROTEÇÃO A família do líder comunitário desaparecido aceitou ontem entrar no Programa de Proteção a Testemunhas do governo federal. A mulher e o irmão dele temem por suas vidas. Ontem, eles colheram novamente sangue para confrontar com o material do corpo mutilado encontrado na zona oeste. A mulher de Siqueira disse ver semelhanças ao analisar partes do rosto do corpo encontrado. O delegado Altair Queiroz, da 40ª Delegacia de Polícia, garantiu ontem estar "perto de solucionar o caso".

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