Líder do PCC depõe na Câmara e ironiza deputados

O preso Marcos William Camacho, conhecido como Marcola, acusado de liderar o PCC (Primeiro Comando da Capital), aproveitou a maior parte do seu depoimento hoje à Comissão Especial de Combate à Violência na Câmara, para cobrar dos deputados que exijam dos governos o cumprimento da lei de Execuções Penais. Sob forte esquema de segurança e demonstrando profundo conhecimento em relação aos seus diretos, Camacho exigiu dos parlamentares direitos iguais para ele, para deputados que cometem crimes e para o juiz Nicolau dos Santos Neto, acusado de desvio de R$ 169 milhões da construção do prédio do TRT-SP."Pé rapado vai para a prisão, deputado não", atacou Marcos Camacho, lembrando que não existe política de reabilitação de presos, que são tratados como "animais". "Lalau cometeu erro e não é tratado como eu e ele roubou o povo e eu um pé rapado", acentuou ele, provocando a reação do deputado Moroni Torgan (PFL-CE). "Isso está mudando, nós já botamos deputados na cadeia", disse Moroni, listando alguns. "São dois ou três e na cadeia são milhões de presos", retrucou Camacho.O objetivo da sessão, que seria obter informações sobre como foi formado o PCC e buscar explicação para as rebeliões nos presídios, ficou em segundo plano. O fato de Camacho - condenado a 22 anos, dos quais já cumpriu 14 - estar em isolamento desde que chegou a Brasília há seis meses, tomou conta do debate, provocando até mesmo discussões entre os parlamentares. Ao final alguns deputados até se comprometeram em procurar o juiz para saber se poderiam reverter essa situação. Mas na verdade, a sessão se transformou em tribuna para os deputados defenderem seus pontos de vista e até fazerem pregações religiosas, como o deputado Reginaldo Germano (PFL-BA), que tentou converter o preso a "encontrar Deus" na Igreja Universal do Reino de Deus.Muito bem articulado em suas colocações, o preso ironizou os parlamentares várias vezes. Quando foi acusado estar montando em Brasília o PLD, uma organização semelhante ao PCC, Camacho acabou provocando risos e constrangimentos na platéia de poucos parlamentares. "Se ficar provado que eu fiz esse PFL aí....", disse ele, sendo logo advertido pelo presidente da comissão, deputado pefelista Marcondes Gadelha(PB), mas sob riso dos demais. "Desculpe, esse PLD", corrigiu ele, acrescentando que "se tivesse alguma prova aí (de que estaria montando essa nova associação) eu até aceitaria estar no isolamento."Mesmo negando reiteradas vezes ser um dos mentores do PCC, Camacho insistiu que o Estado precisa dar estudo, cursos profissionalizantes do Senai, trabalho e assegurar todos os demais direitos dos presos, como os banhos de sol. Mas ele se mostrou profundo conhecedor da organização garantindo que ninguém ganha dinheiro com o PCC, que ninguém é obrigado a se filiar ao comando e fala das regras e "linha de ética" da instituição. "O PCC acabou com o estupro nas prisões em São Paulo e com os espancamentos", disse Camacho, explicando que quem não cumpre as regras pode ser morto, no caso de estupro ou é forçado ao isolamento, quando pratica extorsão.Ele assegurou ainda que o PCC não é uma entidade com esse poder que se fala. "Isso é coisa da mídia", disse ele, assegurando que o PCC foi criado apenas porque "a massa carcerária resolveu exigir que os seus direitos fossem assegurados". Segundo ele, a linguagem para exigir tais direitos é a violência por ser a única que os presos conhecem.

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