Líderes comunitários de favelas temem ação do tráfico

O assassinato do vice-presidente da Associação de Moradores do Morro da Serrinha, Antônio Carlos Soares de Araújo, por traficantes da favela, há uma semana, deixou os líderes comunitários apreensivos. Um relatório da Comissão contra a Impunidade da Assembléia Legislativa do Rio também virou motivo de preocupação: os números mostram que, nos últimos dez anos, 130 líderes foram mortos, 350 foram expulsos das associações ou da comunidade pelos bandidos e 450 foram cooptados pelas quadrilhas.Segundo o deputado Carlos Minc (PT), presidente da comissão, é cada vez menor o número de lideranças que levantam a voz contra os traficantes. "Anos atrás, conheci dezenas de líderes progressistas, de esquerda", disse. "Hoje, são só um ou dois. As pessoas estão encolhidas, agem conforme a lei do silêncio. Isso é muito grave, porque as associações fazem o contraponto ao poder do tráfico."O levantamento, que abrange a área do Grande Rio, está sendo feito há quatro meses e se baseia em matérias jornalísticas e dados das Polícias Civil e Militar. O trabalho tem o objetivo de mostrar os riscos pelos quais os líderes passam e discutir a questão com os representantes das associações e as igrejas. O relatório será entregue às autoridades para que as medidas cabíveis sejam tomadas.MedoMesmo sem nunca ter sido ameaçada, a presidente da Associação de Favelas de Niterói e São Gonçalo, Deusa Neves, está assustada. Ela afirmou que sempre foi muito bem aceita nas comunidades em que entrou. "Só conheço o lado bom da favela, das pessoas que trabalham. O outro lado eu desconheço", disse.Ao contrário de Deusa, Antônio Carlos Soares de Araújo, o Mestre Macarrão, sabia do perigo que corria ao se opor aos bandidos. Ele foi executado por traficantes da favela depois de ter se recusado a guardar maconha e cocaína na associação. Antes disso, o líder havia questionado ações dos criminosos várias vezes.Jorge João da Silva, o presidente da associação da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, zona norte, não gosta de comentar o que ocorreu com Macarrão. Ele acredita que o melhor é deixar para a polícia a função de combater o tráfico. "Meu trabalho é só social, então nunca fui perseguido", ressaltou. "Mas minha família fica com medo", disse Silva, que atua em uma das áreas mais perigosas do Rio, onde o jornalista Tim Lopes foi morto, no dia 2 de junho.Líder do Morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul, André Fernandes se considera um herói. "De um lado está a polícia, com quem temos de ter um relacionamento razoável e de outro, o tráfico, formado por moradores da favela. Vivemos no fio da navalha. Não se pode falhar, senão é fatal", afirmou.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.