Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Líderes religiosos criticam juiz que não considera religiões cultos afro-brasileiros

Babalaô afirmou em evento ecumênico que decisão foi preconceituosa; já pastor evangélico ressaltou importância do respeito entre crenças

Ronald Lincoln Jr., O Estado de S. Paulo

19 Maio 2014 | 14h40

Atualizada às 21h04

RIO - Em evento ecumênico realizado na manhã desta segunda-feira, 19, no Estádio do Maracanã, zona norte do Rio, líderes religiosos criticaram o juiz federal Eugenio Rosa de Araújo, da 17.ª Vara Federal, por não considerar religiões as manifestações afro-brasileiras. A afirmação foi proferida em liminar que negou pedido do Ministério Público Federal (MPF) para a retirada da internet de vídeos ofensivos à umbanda e ao candomblé.

O babalaô Ivanir dos Santos, representante do candomblé, demonstrou indignação. "Vocês sabem do momento difícil que passamos. A todo momento, nossa religião é desrespeitada. Um juiz, de maneira preconceituosa, não considera religiões a umbanda e o candomblé. O que leva ao racismo e ao ódio é a ignorância", disse.

Santos rebateu a afirmação do magistrado de que a umbanda e o candomblé não "contêm texto-base". "Somos de uma cultura que diz que antes era o verbo. A palavra que é sagrada. Com esse pensamento, ele desqualifica o Cristo. Cristo não deixou nada escrito", disse.

O pastor evangélico José Cavalcante, da Igreja Presbiteriana Unida, disse considerar importante a interação e o respeito entre as religiões. "Qualquer evento inter-religioso é importante para ensinar que não somos inimigos. Você pode não concordar com determinadas doutrinas de uma religião, mas tem de defender o direito dela de existir e pregar. Uma das grandes causas de guerra tem questões religiosas envolvidas", afirmou.

O sociólogo Rangel Bandeira, da rede Desarma Brasil, fez crítica semelhante. "Nós vemos o resultado disso em uma parte do mundo com guerras, massacres. Tivemos agora o sequestro de meninas na Nigéria, fruto da intolerância. É uma contradição, porque o que caracteriza cada religião é o amor ao próximo", disse Bandeira.

Procurada, a assessoria de imprensa da Justiça Federal informou que Araújo não comentaria o caso. O MPF já entrou com um recurso no Tribunal Federal Regional (TRF-2).

Copa. O encontro Copa da Paz foi promovido pela Pastoral do Esporte da Arquidiocese do Rio, com o objetivo de promover o tema social da Copa do Mundo 2014 – Por um Mundo sem Armas, Drogas, Violência e Racismo – e a Campanha da Fraternidade 2014 – Fraternidade e Tráfico Humano.

Durante o evento, os religiosos exaltaram a importância da Copa como um evento que fomenta a igualdade entre povos e culturas e a paz. No fim da cerimônia, em tom mais descontraído, alguns líderes brincaram com uma bola do mesmo modelo que será usado no Mundial do Brasil.

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