Líderes religiosos participaram de mais de um conflito

A história dos conflitos de fundo messiânico da primeira metade do século 20 no Nordeste costuma misturar lideranças e revoltas. Veio do sítio Caldeirão, no Crato - palco de uma sangrenta repressão do Estado Novo, em 1937 - o homem que incentivou a formação do arraial de Pau de Colher.

, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

O beato Severino Tavares, aliado do líder sertanejo José Lourenço, peregrinou pelos sítios e povoados da divisa da Bahia com o Piauí, no começo dos anos 1930, quando o movimento de Lourenço no Ceará ainda não tinha sido disperso e atacado pela polícia.

Nas andanças pela caatinga, Tavares usava chapéu de palha, túnica de algodão e salgabundas - sandálias de couro cru que, na pisada, jogava areia nas costas. Ele ficou pouco tempo na região, mas o suficiente para formar um grupo de seguidores capaz de repetir a experiência do Caldeirão.

Pau de Colher é uma história também de traições e complôs. O primeiro líder do reduto, José Senhorinho, teve seu poder minado por homens que estavam abaixo da hierarquia do lugar. Senhorinho exercia mais o poder religioso, deixando vagos os comandos militar e político.

Joaquim Bezerra, o Quinzeiro, e Ângelo Cabaço passaram a comandar ações nos sítios e fazendas próximas sem autorização de Senhorinho.

Pau de Colher só caiu após três campanhas militares. Senhorinho e Cabaço morreram na segunda. "Senhorinho estava desiludido, deprimido, sem poder", diz o pesquisador Marcos Damasceno, um estudioso dos conflitos na região. "Ele se entregou."

Com a morte de Senhorinho e Cabaço, Quinzeiro unificou os poderes militar e político que já possuía com a chefia religiosa. As crianças e mulheres passaram a pedir a sua bênção e os homens consultavam-no para abrir novas trincheiras, definir escalas de sentinelas e definir grupos de defesa. Foi na chefia única de Quinzeiro que Pau de Colher foi atacada na terceira e definitiva expedição militar.

Não há registro da morte do último chefe de Pau de Colher. Moradores da região onde ocorreu o conflito dizem que o líder conseguiu escapar do cerco montado pelo capitão Optato Gueiros, da Polícia Militar.

Em seu relatório, Gueiros tenta incriminar os beatos José Lourenço e Severino Tavares, que nessa época estavam escondidos na Serra do Araripe.

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