Ligação devolve escolha de vice ao DEM

Reunida na casa de Heráclito, cúpula do partido telefonou às 22h30 de terça, de Brasília para Curitiba, para rifar a vaga de Álvaro Dias

Ana Paula Scinocca, Christiane Samarco, Eugênia Lopes, Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2010 | 00h00

 

 

 

Na véspera. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também foi chamado para ajudar nas negociações com o DEM

 

 

 

Um telefonema dado às 22h30 de terça-feira, de Brasília para Curitiba, foi a bomba usada pelas lideranças do DEM para implodir a resistência de tucanos à ideia de rifar o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) da vice do candidato José Serra.

Dois cardeais tucanos, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador mineiro Aécio Neves, participaram ativamente da implosão, defendendo a escolha de um novo vice ? e que fosse do DEM.

Reunida na casa do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), no Lago Sul, a cúpula do DEM avaliava as conversas que consumiram, em São Paulo, a manhã e tarde de toda a terça-feira. À noite, o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ) e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, voaram para Brasília e se juntaram aos parlamentares na casa do senador piauiense.

A ameaça de rompimento da aliança estava superada ? até porque o PSDB precisa do tempo de rádio e TV do DEM, e o DEM precisa de uma boa campanha de Serra para sobreviver ?, mas os líderes do Democratas viram que a saída de Álvaro Dias da vice não estava garantida porque havia resistências entre tucanos próximos ao próprio candidato.

O telefonema estratégico foi dado pelo deputado Abelardo Lupion (DEM-PR). Com o consentimento de todos os presentes na casa de Heráclito, Lupion abriu o viva-voz do telefone, discou para o senador Osmar Dias (PDT-PR) e disse que ele estava livre para se candidatar ao governo do Estado porque o irmão, Álvaro Dias, não seria mesmo o vice de Serra. Osmar desligou e usou o telefonema como pretexto para avisar à imprensa paranaense que seria candidato, armando o palanque da candidata Dilma Rousseff (PT) no Estado.

Os parlamentares do DEM tomaram a decisão de fazer o telefonema porque souberam pelo senador Agripino Maia (DEM-RN) que Osmar Dias havia passado o dia em conversas com um enviado do Planalto, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), e que a decisão de sair candidato ao governo do Paraná estava consumada. Foi para não ficar a reboque da indecisão dos tucanos que a cúpula do DEM decidiu virar protagonista na estratégia de catapultar Álvaro Dias da vaga de vice de Serra.

O deputado Jutahy Magalhães Júnior (PSDB-BA), aliado de José Serra, foi um dos primeiros tucanos a ver a informação nos portais do noticiário político. Ligou para Álvaro Dias dizendo que nada estava decidido sobre a implosão do seu nome. Tentou, sem sucesso, falar com Osmar Dias.

Apesar da operação tucana para retomar controle da situação, o telefonema de Lupion botou o DEM no comando da negociação para a escolha do novo vice.

Em São Paulo, nas reuniões com Serra, Kassab, que havia arrastado FHC e Aécio para as conversas, já abrira a porta para uma linha de negociação que mantinha o DEM e o PSDB como aliados. Na semana passada, o prefeito havia estado em Belo Horizonte em busca da ajuda de Aécio para dobrar os tucanos.

Quando desembarcou em São Paulo, na madrugada de ontem, a bordo de um jatinho enviado por Serra para buscá-lo na capital mineira, Aécio entrou nas reuniões como aliado do DEM, removendo as resistências do PSDB à saída de Álvaro Dias. "Não quero indicar ninguém. Quero ajudar a chegar ao entendimento e, para isso, não pode haver diferença entre um nome do DEM e do PSDB", disse Aécio.

"Jovem e novo". Foi em clima de enterro que os dirigentes do DEM foram de São Paulo para Brasília. Kassab pedira ajuda ao ex-ministro Luiz Carlos Santos, a quem FHC se referia como o articulador que "dava nó em fumaça". "Precisamos resolver este impasse. Venha conosco a Brasília", pediu Kassab.

Em Brasília, na casa de Heráclito, após telefonema de Lupion e da defenestração de Álvaro Dias, foi Santos quem apontou o caminho para a escolha do novo vice, dando aos tucanos a fórmula para que Serra ficasse livre para escolher um nome tanto do PSDB quando do DEM. "A saída é simples: vamos propor ao PSDB uma opção dupla", disse. "Se o vice for do DEM, eles escolhem o nome. Se for do PSDB, a indicação é nossa."

O tucano aceitou o formato que permitiu ao DEM aprovar a coligação e disse que queria um nome "jovem e novo". Mas Serra também lembrou que, no leque de opções do DEM, havia uma sugestão de Bornhausen: o deputado Índio da Costa (DEM-RJ). O tucano gostou da associação de Índio com o projeto Ficha Limpa, do qual o deputado foi relator.

Serra bateu o martelo na indicação na tarde de ontem. "O que você acha do Índio", ele perguntou ao presidente do DEM. "Acho espetacular", respondeu Rodrigo Maia. Depois da escolha anunciada, o presidente do PSDB, o deputado Sérgio Guerra (PE), avaliou: "Em alguns dias, esse assunto de vice estará esquecido".

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