'Liguei para meu filho. Uma policial atendeu e disse que ele tinha morrido'

Familiares de vítimas relatam a angústia para reconhecer os 233 corpos da tragédia em boate de Santa Maria, Rio Grande do Sul

Camila Cunha, de Santa Maria, Especial para o Estado

27 de janeiro de 2013 | 17h44

SANTA MARIA - Centenas de famílias vivem neste domingo a angústia de reconhecer os corpos dos 233 mortos no incêndio da boate Kiss, na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul, durante a madrugada.Dentro do Centro Desportivo Municipal (CDM), para onde as vítimas foram levadas, pessoas choravam e gritavam, enquanto voluntários da área da saúde e psicólogos tentam amenizar o desespero dos parentes. 

Em um dos pavilhões do local, os mais de 200 corpos estavam enfileirados lado a lado para serem reconhecidos. Eles estavam tapados com panos, o que fez o ginásio parecer uma espécie de campo de concentração pós-guerra. A técnica de enfermagem Adiles Dias, de 55 anos, estava acompanhando parentes que só poderiam passar para o momento de reconhecimento de corpos acompanhados de um policial e um profissional da área de saúde. "Já socorri cerca de 14 pessoas que desmaiaram ou ficaram em estado de choque sem conseguirem se mexer", disse. 

"É realmente a coisa mais triste que já vi na minha vida", desabafou Adiles. Ana Paula Oliveira, de 35 anos, era uma das mães que estavam sendo acompanhadas por Adiles. Ela afirmou que só ficou sabendo do fato depois das 8h da manhã deste domingo, 27, quando os vizinhos começaram a ligar para alertar sobre o incêndio da madrugada. Ana conseguiu a confirmação da morte do filho antes mesmo de chegar ao ginásio, por volta das 10h, quando ligou para seu celular. "Quando liguei pra ele, uma policial atendeu e me disse que meu filho tinha morrido, mas ainda não caiu a ficha". 

Solidariedade leva centenas a ginásio

Além de pessoas que perderam parentes e amigos, muitos que não conheciam ninguém no local do incêndio foram até o ginásio de Santa Maria para levar água, luvas de procedimento cirúrgico, papel higiênico, máscaras e comida. Danielli Gonzales foi com sua mãe até o local. A jovem é de Curitiba e, pela manhã, recebeu ligações de parentes que ficaram desesperados ao ouvir notícias sobre a tragédia ocorrida na boate Kiss. Danielli perdeu 4 amigos e até as 14h não tinha notícias de um amigo dado como desaparecido. 

A publicitária Gabrielly Milany foi até o local levar água e mantimentos para as pessoas que estavam na fila e dentro do ginásio, à espera da hora de reconhecer os corpos. Gabrielly conta que estava em casa quando ouviu a notícia sobre a Kiss. "Resolvemos ir ao mercado e para comprar água e papéis higiênicos para tentar ajudar no trabalho de reconhecimento das vítimas".

Um pavilhão secundário do Centro Desportivo foi aberto para abrigar parentes já cadastrados na lista de espera para reconhecerem parentes e amigos. No lugar cercado, famílias desesperadas recebiam atendimento de enfermeiros voluntários. Entre um degrau da arquibancada, a estudante Letícia Zuliani, de 19 anos, chorava a morte de uma amiga e esperava para ver o corpo da vítima. Letícia diz que tinha sido convidada pra ir até a boate Kiss para comemorar o aniversário de uma amiga, mas resolveu não ir. "Eu estava cansada, queria dormir, se eu tivesse aceito o convite das minhas amigas provavelmente estaria morta". A estudante disse ter mais três amigos desaparecidos.

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