''Limpa'' nos Transportes vai atingir indicado do PT

Dilma acerta com ministro saída de Hideraldo Caron como forma de mostrar ''corte na própria carne''; dirigente interino da Valec também está no alvo

Tânia Monteiro / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2011 | 00h00

O afastamento de mais um diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Hideraldo Caron, e do presidente interino da Valec, Felipe Sanches, já foi acertado entre a presidente Dilma Rousseff e o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos. A decisão foi tomada na tarde de sexta-feira - falta só o ministro escolher quando anuncia esses afastamentos.

Com a saída de Caron, atual diretor de Infraestrutura Rodoviária do Dnit , e de Sanches, que substituiu José Francisco das Neves, o Juquinha, serão oito os demitidos ou afastados na cúpula dos Transportes. Os mais recentes da lista são o diretor interino José Henrique Sadok - afastado anteontem após o Estado mostrar que sua mulher, dona de uma construtora em Boa Vista (RR), ganhou contratos no valor de R$ 18 milhões com o órgão - e um funcionário terceirizado que agia como lobista do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP).

Luiz Antonio Pagot, indicado pelo senador Blairo Maggi (PR-MT) para dirigir o Dnit ainda no governo Lula, em 2007, está formalmente em férias, mas assessores da presidente Dilma dizem que ele não voltará ao cargo. Ontem, após muita insistência dos jornalistas em uma entrevista coletiva, o ministro Paulo Sérgio Passos jogou a responsabilidade da saída definitiva para Dilma. "Ele (Pagot) está em férias. Não posso falar em decisões da presidente", afirmou.

"Própria carne". A saída de Caron, militante do PT gaúcho e indicado pelo partido para o Dnit, e de Sanches faz parte da ordem dada pela presidente para que Passos faça "uma limpa" nos Transportes. Em relação a Caron, que controla quase 90% do orçamento do Dnit, o Planalto quer mostrar também que está disposto a "cortar na própria carne". Com base em informações de Pagot, a revista Veja aponta Caron como um diretor do Dnit que se empenhava em viabilizar "estranhos reajustes" de preço de obras. A publicação cita a duplicação da BR-101, no trecho entre Palhoça (SC) e Osório (RS). Teria sido Caron, segundo Pagot, quem sustentou no colegiado do Dnit a necessidade de assinar contratos aditivos com as empreiteiras encarregadas da obra, que teve seu preço elevado em 73% do valor original.

Dilma saberia dessas informações sobre Caron desde sexta-feira, quando se reuniu com Passos. Uma investigação preliminar na Valec também levou a presidente a mandar o ministro afastar Sanches dessa estatal.

Dilma disse a Passos que não quer execrar ninguém e que é preciso agir com equilíbrio, para que não sejam cometidas injustiças. Mas ela também afirmou que não suporta tantas denúncias e suspeições em um único setor do governo e quer que providências sejam tomadas o mais rápido possível.

Segundo um interlocutor da presidente, Dilma não vai "escolher pessoalmente" os substitutos dos dirigentes afastados do Dnit, da Valec ou do próprio ministério - pois acabaria ela própria sendo responsabilizada por eventuais erros dos futuros escolhidos. Para a presidente, o fundamental é que as próximas escolhas sejam feitas "com lupa" e evitem conexões partidárias de caráter exclusivamente fisiológico. Dilma quer participar das decisões ao lado de Passos, mas a responsabilidade pelos subordinados continuará sendo do próprio ministro.

QUEM É

HIDERALDO CARON

DIRETOR DE INFRAESTRUTURA DO DNIT

Engenheiro civil, é filiado ao PT-RS. Foi vice-presidente do partido no Estado, ocupou diversos cargos na Prefeitura de Porto Alegre e foi diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagens (Daer)do governo gaúcho.

CRISE NOS TRANSPORTES

2 de julho

Revista Veja revela suposto esquema de propinas em órgãos do Ministério dos Transportes para irrigar os cofres do PR. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Valec, estatal responsável pelas ferrovias, cobrariam até 5% sobre o valor das obras de empreiteiras e consultorias. A pasta era comandada por Alfredo Nascimento

No mesmo dia, são afastados: Luiz Antonio Pagot, José Francisco das Neves, Mauro Barbosa e Luiz Tito Bonvini

5 de julho

Por ordem de Dilma, o ministério cancela todas as novas licitações do Dnit e da Valec

6 de julho

Após novas denúncias, Nascimento pede demissão. Secretário executivo da pasta, Paulo Passos, assume como interino

8 de julho

Senador Blairo Maggi (PR-MT) é sondado por Dilma para o ministério, mas recusa

11 de julho

Contrariando o PR, Dilma efetiva Passos como ministro

14 de julho

Estado revela que dona de construtora cujos contratos com o Dnit passam de R$ 18 milhões é mulher do diretor executivo José Henrique Sadok. Ele acumulava o cargo de diretor-geral interino, no lugar de Pagot

15 de julho

Dilma manda afastar Sadok do Dnit, mas adia definição de novo diretor-geral interino. Também perde o cargo Frederico Augusto de Oliveira Dias, considerado "boy" de Pagot.

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