Lista de espera: imóveis usados que valem como (ou mais que) os novos

Charme, história e localização levam casas e apartamentos a virar estrelas disputadíssimas em São Paulo

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

11 Julho 2009 | 00h00

Há imóveis em São Paulo que se transformaram numa espécie de bilhete premiado. São tão disputados pelos paulistanos que dificilmente caem nas mãos de corretores. Nunca recebem placas indicativas de aluguel ou venda, pois quando sai um morador já há outro de tocaia para entrar com o caminhão de mudança. Não importa se é casa ou apartamento. Tudo depende do bairro e das características que fazem desse imóvel único. Levar a assinatura de um arquiteto que fez história na cidade pode ser uma delas. Às vezes, basta ser charmoso, elegante e ter localização privilegiada - o que em São Paulo não é pouco. Em alguns desses imóveis, há até lista de espera de compradores e locatários. De frente para o Parque do Ibirapuera, na zona sul, na Avenida República do Líbano, o Edifício São Carlos, de apenas cinco andares, construído há 54 anos, reina entre espigões novos e luxuosos da Vila Nova Conceição. As paredes externas do edifício neoclássico foram tomadas por trepadeiras, deixando a construção ainda mais charmosa e integrada à região arborizada. Os apartamentos - são dez unidades - têm 120 metros quadrados distribuídos em sala, cozinha, área de serviço e dois dormitórios. "A minha lista de interessados desse mês, que passei para a imobiliária, tem 60 nomes", diz o zelador Adeilton Rolim, de 34 anos. "Não há apartamento vago. A espera chega a dois anos." Para tristeza de muitos paulistanos que tocam o interfone pedindo informação, no prédio nunca há unidades disponíveis para venda, só para locação, que gira em torno dos R$ 3.400. O prédio já teve moradores conhecidos, caso do costureiro Clodovil Hernandes, que deu mais fama ao endereço. Quanto mais famoso o antigo proprietário mais atraente fica o imóvel. Na torre residencial do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, há uma semana foi colocada à venda a unidade que pertenceu a Francisco Antônio Paulo Matarazzo Sobrinho, mais conhecido como Ciccillo Matarazzo, que, entre outros incentivos à arte, fundou o Museu de Arte Moderna de São Paulo e a Bienal. Com cerca de 500 m², está à venda por R$ 1,2 milhão, abaixo do preço, por causa do mau estado de conservação. Em apartamentos assim, sempre tem gente de olho. Um bom exemplo é a dona de casa Maria Aparecida Rego, que por cinco anos esperou o apartamento do espólio do conde Silvio Penteado, na Avenida São Luís, no centro, ser liberado para a venda. Casada com um juiz, morava num apartamento menor, de cerca de 200 m² na região. O do conde tem 400 m² a mais. "Soube do apartamento por um casal de amigos, residentes do Edifício Silvio Penteado. Para ajudar, o manobrista do meu prédio saiu e foi trabalhar lá de zelador", explica Aparecida, que conseguiu a garantia de ser a primeira a ver e a fazer a proposta de compra do imóvel. "Já teve gente que bateu na minha porta oferecendo o dobro do que eu paguei. Mas eu não quero vender." O Edifício Macaé, na Rio de Janeiro - rua em Higienópolis que ficou ainda mais procurada desde que o ex-presidente Fernando Henrique se mudou para um de seus prédios - está entre as torres cobiçadas. Com 600 m², o Macaé já foi o maior da região. "Hoje não é mais; porém, tem características únicas, como a fachada de mármore e uma vista para a região residencial do bairro", diz Roberto Capuano, dono de uma imobiliária que leva seu nome, há 50 anos no mercado. Assim que um morador do prédio mencionou recentemente a intenção de se desfazer do imóvel, surgiu um comprador que ofereceu os exatos R$ 5 milhões pedidos. Na hora de assinar o contrato, o proprietário subiu o preço em R$ 1 milhão. Perdeu o negócio e diz que não vende por menos. Outro sucesso de público é o Parque das Hortênsias, edifício localizado na Avenida Angélica, em Higienópolis. "Atendo cerca de 20 pessoas por dia que procuram apartamento", diz o porteiro Sebastião José Lima. Com grande recuo ajardinado e imponente arquitetura da década de 1950, o prédio tem unidades de 89 m² e 150 m², de dois e três dormitórios. "O projeto é de João Artacho Jurado, arquiteto que no passado foi considerado cafona, e hoje faz sucesso", diz Capuano. Dinheiro no bolso, paciência, persistência e sorte são as virtudes necessárias para conseguir um imóvel desejado. O gaúcho Humberto Ellwanger, de 35 anos, sócio do Thai Gardens - filial brasileira de uma rede espanhola de restaurantes tailandeses -, há três anos tenta comprar um apartamento no Edifício Três Marias, na Avenida Paulista. Sabendo que a disputa é grande, deixou nome em duas listas - uma de aluguel, outra de compra. Em 2007, conseguiu fechar contrato de locação. "Meu nome continua na lista de futuros compradores. Vale a pena. Tenho metrô, cinema e restaurantes na porta." A secretária Sandra de Faria, de 53 anos, quando conseguiu uma unidade no prédio, fechou contrato no hospital. "Estava internada com pneumonia. Se não assinasse, perderia o negócio." Apesar da construção ser de 1962, o Três Marias passou por restauração completa. Encanamento, hidráulica e até o piso da garagem são novos. Na cobertura, a casa do zelador deu lugar a um projeto não acabado de academia e sauna. No terraço, dois fornos de pizza e duas churrasqueiras comunitárias foram instalados. Para conseguir uma das 16 casas coloridas da charmosa Vila Angela, na Barra Funda, zona oeste, é preciso ser amigo ou parente de morador. "Quando cheguei, há 13 anos, o pedaço era horrível", diz a atriz Carlota Joaquina, de 44 anos, que acabou trazendo amigos - artistas plásticos e atores, que deram charme às casas de operários da Indústria Matarazzo. "Quando alguém muda, no dia seguinte já tem conhecido morando. E isso só acontece quando alguém resolve sair do País."

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