FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Livro reconstrói carnaval do pós-gripe espanhola e expõe similaridades com o atual

Obra recém-lançada foi utilizada no desenvolvimento do desfile da Viradouro; críticas conservadoras e até disputa por patrocínio já eram presentes há mais de 100 anos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2022 | 05h00

Alguns mitos se confirmaram – outros nem tanto – enquanto o jornalista David Butter, de 42 anos, pesquisava sobre a mais falada celebração carnavalesca brasileira: a de 1919.  A partir de algumas centenas de páginas de jornais, revistas, documentos e livros, o autor reconstrói cronologicamente os dias da festa em "De sonho e de desgraça: o carnaval carioca de 1919" (da Mórula Editorial), lançado em São Paulo na terça-feira, 19.

O livro também foi um dos nortes da Viradouro para o desenvolvimento do desfile desta sexta-feira, 22, no Rio, sobre o mesmo tema. Como Butter descreve, o carnaval de 1919 de fato foi "puxado por pessoas que haviam visto a morte de perto", não tão diferente do que será o de 2022.

"Foi um carnaval imenso. Por vários fatores, talvez principalmente de contexto. O Rio de Janeiro vinha de uma sequência. O ano de 1918 tinha sido basicamente de um carnaval a portas fechadas, porque o Brasil estava oficialmente em guerra. As grandes sociedades e a quase totalidade dos ranchos, que eram a expressão mais viva do carnaval daquele momento, decidiram não colocar o pé na rua", comentou em entrevista ao Estadão. Depois, veio a pandemia da gripe espanhola, que, em meses, matou 15 mil habitantes da então capital, no que o autor descreve como "número aproximados, talvez subestimados".

Fala-se até de 200 mil, 300 mil foliões nas ruas, em um Rio menos urbanizado e populoso. "Se fosse jogar proporção no Rio de hoje, seria em torno 1,6 milhão na rua", compara. "Em número de registro de sociedades, grupos, blocos, cordões, teve um salto astronômico."

Em outros aspectos, também há similaridades talvez nem tão óbvias, de patrocínio à insatisfação com o poder público. "Na festa da Penha, onde se cantava músicas de carnaval, as cervejarias disputavam a tapa quem iria fornecer a bebida", comenta. "Há uma passagem de uma crônica que cita que, em 1919, um carro oficial, do governo, foi visto em meio ao carnaval. E o jornal até brincava que o dinheiro havia sido muito mais bem gasto que em alguns contratos que tinham por aí."

Na questão das críticas à folia, o conservadorismo religioso também se fazia presente. "Havia uma posição de parte da opinião católica sobre a forma que o carnaval havia tomado, muito parecida com os argumentos de hoje", diz. Ele cita, por exemplo, uma crônica sobre o peso que canções de carnaval "mais sacanas" teriam ao serem cantadas por jovens mulheres, por exemplo.

"Os discursos de hoje – se o poder público deve apoiar ou não, o que o carnaval representa para os costumes, para a família, para a formação moral dos jovens – são discussões que se vê em passagens do carnaval de 1919, 1920…", relata. "Mas diria que hoje (o discurso conservador) está mais disseminado."

O jornalista cita também a circulação de profissionais das artes na feitura do carnaval e registros de crimes patrimoniais, assim como a imagem já então vigente da festa enquanto manifestação cultural, que atraía todas as classes e até mesmo a presença dos então presidentes. Como hoje, havia tanto os desfiles cadastrados junto ao poder público quanto os não oficiais, formados na hora. 

"A grande diferença é que hoje existia a escola de samba na paisagem da época", comenta. "As escolas de samba fazem um pouco do que os ranchos (mais populares) faziam, por desfilar histórias, e tem o peso e a importância que as grandes sociedades (desfiles feitos pelas classes abastadas, mas que atraiam a população em geral) tinham. O que não existia era a indústria do carnaval como hoje, com mais complexidade."

Para Butter, o carnaval de 2022 terá um pouco de 1919, pelo pano de fundo pandêmico, e um pouco de 1912, por envolver duas datas (a remarcada, então pela morte do Barão de Rio Branco, e a original, com desfiles não oficiais). "Esse carnaval terá um sentido de reencontro nas escolas de samba. O que é difícil prever é o tamanho da explosão da rua."

'Era outra cidade, em transformação'

Parte da pesquisa do livro partiu de um levantamento feito pelo autor há cerca de cinco anos para um documentário nunca finalizado sobre a gripe espanhola no Rio, durante o qual eram frequentes as referências ao carnaval de 1919. O gatilho para se voltar ao tema ocorreu de vez no início da atual pandemia, prolongando-se por cerca de um ano e meio de levantamentos e escrita. 

Desde aquele momento, a ideia era reconstituir aqueles dias em um “livro de histórias”, não um “livro de história”. Tanto que o jornalista explica que boa parte do trabalho envolveu a catalogação dos personagens, informações cotidianas e outros dados, para entender quando e como cada situação ocorreu, em parte em meio a períodos de maior restrição de acesso a documentos. 

"Foi realmente uma pesquisa pandêmica, que pegou altos e baixos, períodos mais brabos, perdas que todo mundo teve. E eu tive também", descreve Butter. Algumas daquelas situações pré-carnaval de 1919 pareciam até então inimagináveis pouco antes de se tornaram novamente realidade, como as cidades esvaziadas, o futebol paralisado e muitas pessoas próximas contaminadas. 

"Algo que sempre me impressionou muito na pesquisa, lá atrás, foi como a vida na cidade foi rompida. Não havia telefonistas, coveiros, condutores de bonde suficientes… A imagem da cidade vazia, que não funciona", descreve. Para ele, as experiências da covid-19 acabaram influenciando na maneira de narrar o ano de 1919, embora evitasse e esteja ainda em meio ao ainda incerto fim definitivo da atual pandemia.

Butter avalia que a fama daquele carnaval se deve também à centralidade do Rio enquanto capital, com diversos jornais e outros periódicos que acompanhavam a festa. Além disso, contemplou a infância e juventude de toda uma geração de grandes cronistas (como Nelson Rodrigues e Mario Filho), que viviam no Rio e narraram aquelas experiências por décadas ao "eleger esse carnaval como uma parte importante da sua própria formação". 

Colunas e publicações sobre costumes e moda também entraram na narrativa, por envolverem transformações sociais daquela época, evidentes não apenas no carnaval. "Não eram os anos loucos, os anos 1920, mas não era o Rio de Janeiro mal saído do império. Era outra cidade, em transformação e fluxo", comenta. 

Por outro lado, diferentemente do que se mitificou, não foi uma mudança brusca de comportamento ao ponto de impactar na natalidade, como se chegou a dizer, por exemplo. "Os floreios e exageros possíveis (sobre 1919, narrado por cronistas), isso é natural da memória (a idealização). Eram transformações que já estavam ocorrendo, mas não tinham um marco (até então)."

São Paulo também teve carnaval icônico

O carnaval de 1919 também arrebatou São Paulo. Faltavam ainda 15 dias para o que o Estadão chamava de “reinado legítimo do Momo” quando a capital paulista e outros pontos do País tinham desistido de esperar a data oficial.

“É natural esse anseio de alegria e de prazer que se nota entre o nosso povo: não tivesse ele a descontar tantos sustos, tantos aborrecimentos, tantas tristezas, que só o carnaval – especialmente para todos os males – poderá curar”, dizia uma reportagem publicada pelo Estadão em fevereiro daquele ano. “A alegria transbordou até altas horas, triunfalmente, como uma enorme vingança da vida imortal contra os horrores que a quiseram escurecer”, apontou outra, de março.

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