Livro resgata as casas bandeiristas

Ainda que rudimentar, para pesquisadora esse tipo de construção contribui para SP se orgulhar de seu passado

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

26 de dezembro de 2008 | 00h00

Porque orgulho é uma coisa sem explicação, geralmente atrelado às raízes, ao que há de mais essencial, o paulista elegeu como símbolos de sua arquitetura histórica as simples, pobres e rudimentares "casas velhas". Casas velhas era como o poeta Mario de Andrade (1893-1945) chamava as residências rurais do período colonial que encontrou em suas andanças pelo Estado, em 1937, incumbido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de determinar o que merecia ser tombado. Casas velhas que, menos de duas décadas mais tarde, já consagradas como tesouro paulista, foram chamadas em discurso solene de "casas bandeiristas". Por outro poeta, Guilherme de Almeida (1890-1969). E é sob este nome, que alude aos desbravadores bandeirantes presentes no imaginário paulista, que elas passaram a ser tratadas a partir de então. "Mesmo que nenhuma delas tenha pertencido a bandeirantes", afirma a arquiteta Lia Mayumi, do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura de São Paulo. Hoje estão catalogadas - e devidamente tombadas - 38 casas bandeiristas no Estado. Doze delas na capital. Seis sob a administração do DPH, onde Lia trabalha há 21 anos. "Ao longo do tempo, algumas foram doadas à Prefeitura, outras acabaram adquiridas", conta. Ela aproveitou o conhecimento conseguido durante o trabalho de restauração e preservação dessas construções de taipa de pilão para desenvolver sua tese de doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em 2006. E acaba de lançar o bem-acabado livro Taipa, Canela-Preta e Concreto - Estudo Sobre o Restauro de Casas Bandeiristas (Editora RG, 317 páginas, R$ 35). Quem já visitou uma dessas construções - as seis mantidas pelo DPH, por exemplo, recebem periodicamente exposições temporárias - logo imagina uma casa rústica, mas toda branca, limpinha e clean. "Não eram assim. Isso foi um paradigma criado", explica a arquiteta. "Originalmente, cada uma era de um jeito. Eram pintadas a cal, mas havia moradores que misturavam pigmentos, deixando os cômodos azuis, verdes, amarelos, ocres..." O conceito de casa bandeirista, tal e qual se conhece na atualidade, foi desenvolvido pelo arquiteto Luiz Saia (1911-1975), que dos anos 30 até a morte trabalhou no Iphan e atuou na descoberta de todas as casas bandeiristas. Até hoje o DPH utiliza o método de Saia para preservar esse patrimônio da arquitetura.É óbvio que, mesmo com as diferenças entre si, as casas bandeiristas apresentam um conjunto de características comuns que permite sua classificação dentro da mesma categoria. Para começar, todas são construções coloniais paulistas, ou seja, foram erigidas entre os séculos 17 e 18. Sua paredes são de taipa de pilão e as telhas, de canal. Saia também observou que havia uma preferência que elas fossem construídas próximas a riachos - na certa para facilitar o acesso à água. A disposição dos cômodos também era semelhante, como se as casas tivessem uma divisão interna em três alas: a social, a familiar e a de serviço.O resgate das casas bandeiristas, simbolizado pelo já citado discurso de Guilherme de Almeida durante as comemorações do Quarto Centenário, em 1554, contribuiu para que São Paulo também pudesse se orgulhar de seu passado arquitetônico. Ainda que fossem construções rudimentares. "Enfim, o povo paulista sentia que tinha um tipo de edifício próprio da região", afirma Lia. "Era pobre, não tinha ouro como o barroco mineiro, porque não havia riqueza aqui no período colonial." Esse sentimento é revisitado toda vez que alguém se dispõe a conhecer uma das casas velhas que restaram (no quadro, as mantidas pelo DPH).

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