Lixeiras ganham cadeados para barrar catadores

Condomínios de alto padrão trancam lixo para evitar sujeira deixada pelo trabalho de coleta seletiva,

Fabiane Leite, O Estadao de S.Paulo

01 de dezembro de 2007 | 00h00

A lixeira de ferro preto e formato hexagonal, fechada a cadeado e tela de arame grosso, não destoa do imponente prédio de alto padrão, cercado de grades e cercas elétricas. Assim como o edifício de Moema, bairro nobre da zona sul de São Paulo, outros tantos condomínios de alto padrão têm cercado também o lixo dos moradores, alegando que necessitam protegê-lo de ações de catadores de recicláveis, que buscam principalmente as valiosas latinhas. "Eles catam e deixam tudo espalhado, uma bagunça", resume o zelador do edifício de Moema. "Mas papelão entregamos", defende-se o funcionário, que não quis ser identificado. Para entidades que defendem catadores, as reclamações e grades são mais um preconceito contra a categoria, estimada em 20 mil trabalhadores na capital, e refletem também a falta de atenção do poder público a esses trabalhadores. "É mais uma questão de preconceito. Temos lutado para que a população reconheça nosso trabalho. Esses casos são isolados", afirma Carlos Alencastro, do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis.Segundo o movimento, a organização e maior inclusão dos catadores na coleta oficial de recicláveis da capital ajudaria a diminuir os casos - atualmente pouco mais de mil catadores trabalham no programa municipal de reciclagem, responsável pelo aproveitamento de apenas 1% do lixo. Eles atuam em 15 cooperativas conveniadas ao Município, que só foram mantidas no serviço após liminar obtida pela Defensoria Pública estadual neste ano.A prefeitura promete fazer contratos com as 15 cooperativas e abrir mais 17 centrais de separação de recicláveis, mas só abrigará aqueles catadores que estiverem organizados em cooperativas legalizadas, o que é um desafio para a categoria.Em Higienópolis, outro bairro nobre da capital, é possível encontrar lixeiras cercadas em série. A proximidade da área com locais de concentração de catadores, como a Oficina Boracéa, na Barra Funda, faz com que não seja difícil encontrar os trabalhadores pela região vasculhando o lixo, principalmente, nos trechos em que a área nobre aproxima-se dos baixos do Elevado Costa e Silva."Os catadores vasculhavam tudo e o caminhão de lixo da Prefeitura não tem horário para vir", explica o zelador Eduardo de Flora. Ele conta que a lixeira com cadeado na Rua Baronesa de Itu chegou há seis meses para acabar com o problema."Se o caminhão tivesse horário para passar, talvez a gente não precisasse fazer isso", afirma o funcionário. Dana Revi, de 25 anos, moradora de prédio com lixeira fechada, dá outra sugestão. "Um poderia ajudar o outro. Os moradores separam o lixo e catadores passam para pegar.""Era uma zona antes de fechar as lixeiras, fora os riscos de atropelamentos deles. É um problema social pelo qual não podemos nos responsabilizar. Até pagamos um IPTU muito alto aqui", discorda o vizinho de Dana, Leandro Mofsovich, também de 25 anos.

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