Lógica do marketing irrita entidades da sociedade civil

Decisão de candidatos que lideram as pesquisas de não participar dos [br]debates é vista como antidemocrática

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

Organizações da sociedade civil preocupadas com a melhoria do sistema político e eleitoral do País consideram abominável a decisão de alguns candidatos de não participar de debates em época de campanha. Para eles, essa atitude, determinada quase invariavelmente pela lógica do marketing, contraria o espírito democrático da eleição.

"Esse é um momento fecundo para a troca de ideias e a exposição de opiniões e propostas", diz Gilberto Palma, diretor do Instituto Ágora, organização voltada para a educação política e o acompanhamento de parlamentares em assembleias legislativas e câmaras municipais. "Ir para o debate é o mínimo que se espera de um candidato. Quando alguém se recusa, deixa de cumprir um serviço importantíssimo, que é ajudar o eleitor a votar de maneira responsável."

Para a vice-diretora do Movimento Voto Consciente, Rosângela Giembinsky, a recusa cada vez mais frequentes aos convites para debates confirmam o crescente predomínio dos marqueteiros nas campanhas. "É uma atitude abominável", diz.

Ainda segundo Rosângela, o debate é real e direto e expõe o candidato de maneira ampla, com sua história de vida e seu pensamento. "Ele corre riscos, sem dúvidas, mas é o debate que permite ao cidadão avaliar melhor cada um dos pretendentes ao cargo."

Os marqueteiros, porém, preferem outra arena: "Querem os candidatos sempre bem maquiados, nos estúdios, com todos os recursos televisivos disponíveis, como se estivessem numa telenovela e sem correr riscos. Se continuar assim, logo vamos ter uma lei obrigando os candidatos a participar de debates."

Outros casos. A estratégia da recusa é usada sempre por quem está na dianteira nas pesquisas de intenção de voto, independentemente do partido. A atitude adotada agora pela petista Dilma Rousseff segue a linha da que foi usada por Fernando Henrique Cardoso em 1998.

Os sites de apoio à petista não cansam de lembrar o episódio. Bem situado nas pesquisas, o tucano não foi a nenhum debate. Ignorou as provocações de seus oponentes, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PPS). Aparentemente funcionou, porque venceu no primeiro turno.

Em 1990, no segundo turno para as eleições estaduais em São Paulo, o candidato Luiz Antonio Fleury (PMDB) recorreu à mesma tática. Apontado como favorito, fugiu do oponente Paulo Maluf, que era filiado ao PDS, e acabou vencendo.

Para o consultor político Ney Figueiredo, que fazia parte do staff de Maluf naquela eleição, é inevitável o choque entre a atitude pragmática do marqueteiro, preocupado em esconder e proteger o candidato que vai bem nas pesquisas, e o desejo dos cidadãos de conseguir o máximo de transparência nas eleições.

"O maior compromisso do marqueteiro não é com a ideologia, mas com a vitória", diz ele. "Para isso recorre a todas as ferramentas disponíveis."

Mudança. Figueiredo também comenta que não são raros os casos em que a estratégia da recusa é abandonada no meio da campanha. Isso ocorre quando se percebe que, em vez de ajudar, ela prejudica o candidato.

"Os marqueteiros descobrem isso por meio de pesquisas, que hoje consomem grande parte dos recursos das campanhas. Ao menor sinal de que o candidato está sendo prejudicado, eles mudam. Não são burros. Não querem que o remédio mate o paciente", diz Figueiredo.

Ainda usando o exemplo da eleição paulista de 1990, no primeiro turno era Maluf, líder nas pesquisas, quem fugia olimpicamente dos debates, enquanto Fleury, o lanterna, queria debater tudo a qualquer custo.

Frente a frente

ROSÂNGELA GIEMBINSKY VICE-DIRETORA DO VOTO CONSCIENTE

"A gente quer que os candidatos se enfrentem e debatam os problemas, para que o cidadão possa julgar. A informação tem que ser a base do voto"

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