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Longe da escola e grávida

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2015 | 03h00

Nova rodada da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada pelo IBGE na sexta-feira, reforça que a associação entre a gestação na adolescência e baixa escolaridade segue forte no Brasil. A PNS fez extensiva investigação em mais de 80 mil lares em 2013. A idade da primeira gestação no País aconteceu, em média, aos 21 anos. Entre as garotas com menos tempo na escola, essa idade foi de 19 anos.

O uso de métodos contraceptivos também foi mais baixo entre as menos instruídas. Naquelas com ensino fundamental incompleto, menos da metade já havia usado alguma forma de prevenção da gestação. Esse número salta para quase 70% entre aquelas com ensino superior completo. 

Em julho, relatório da Unicef (Plataforma dos Centros Urbanos), já comentado nessa coluna, com dados de oito capitais, revelou que em algumas áreas do País 1 em cada 4 partos acontece em mães entre 10 e 19 anos. 

Os dados da Unicef já mostravam a ligação da gravidez na adolescência com a exclusão social. As garotas jovens eram mães de 8 em cada 100 bebês que nasceram nos territórios com baixa incidência de gravidez na adolescência, ou seja, regiões em que as condições de vida são melhores. Essa proporção subia para 26 em cada 100 bebês (aumento de 2 vezes) nos territórios onde as condições são mais precárias.

Em São Paulo, por exemplo, dados do Datasus, de 2012, mostram que em bairros da região central, com bom acesso da população à educação e proteção social, a taxa de gravidez na adolescência é de menos de 1%. Já na periferia, com menos equipamentos de educação, lazer e cultura, esse número ultrapassa 18%.

Embora nas últimas décadas o País tenha conseguido diminuir, de forma importante, as taxas de gravidez na adolescência, ela ainda é uma questão preocupante em determinadas regiões (como Norte e Nordeste), em determinados territórios (áreas mais pobres dos centros urbanos) e nas populações com menor acesso à educação. 

Diferenças seguem na vida. Outros dados da PNS sugerem que essas diferenças continuam ao longo da vida das mulheres: entre as adultas, na faixa dos 18 aos 49 anos, quase 70% já tinham engravidado pelo menos uma vez na vida. Já entre as que não completaram o fundamental, esse número é mais elevado: 87%. O número de abortos espontâneos e provocados também é mais alto nas mulheres com menor instrução. Ainda de acordo com o IBGE, essas taxas também são mais elevadas na população negra, quando comparadas à população branca.

A distância da escola é apenas um dos indicadores das dificuldades enfrentadas por essas garotas. A ausência de um projeto de vida, a precariedade da estrutura familiar, a falta de poder de decisão frente ao parceiro, as falhas de informação sobre contracepção, a maternidade como um “papel” no mundo, a ilusão de que vão estabilizar a relação com o pai da criança, entre outras situações, só reforçam essa exclusão social.

Se a distância da escola aumenta as chances da gravidez na adolescência, a gestação nessa fase da vida também afasta essas meninas ainda mais da escola. A maternidade precoce é a principal causa de evasão escolar. É uma espécie de círculo vicioso, que só aumenta os percalços que boa parte dessas garotas segue enfrentando no seu dia a dia. 

É PSIQUIATRA

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