Lula abraça Evo e faz provocação a Serra, que reafirma críticas à Bolívia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ironizou o ataque de José Serra ao presidente da Bolívia, Evo Morales, cujo governo foi acusado pelo tucano de ser "cúmplice" do tráfico de cocaína para o Brasil. "Vamos posar aqui, vamos fazer inveja no Serra", disse Lula a Evo, a quem abraçava, logo após a foto oficial de chefes de Estado no 3.º Fórum Mundial da Aliança de Civilizações, no Rio de Janeiro.

Felipe Werneck, Jaqueline Farid e Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Lula fez a declaração enquanto sorria, em frente aos fotógrafos, no saguão do Museu de Arte Moderna (MAM). De mãos dadas com o presidente do Brasil, Morales também riu, mas não comentou a declaração.

No Recife, Serra reiterou ontem que a Bolívia faz "corpo mole" no combate à produção e exportação de cocaína. Ele ainda declarou que "não vale uma nota de três reais" a declaração do Ministério das Relações Exteriores da Bolívia que avaliara seu posicionamento sobre o assunto como "político e eleitoral".

"Quando entro numa briga é para valer, não tenho receio de enfrentar adversários, e a coca tem do seu lado defensores e aproveitadores poderosos", afirmou, em entrevista, depois da festa de lançamento da pré-candidatura do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), seu aliado, ao governo de Pernambuco.

Demonização. No interior de Santa Catarina, a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, disse ontem que não é atitude "de estadista" atribuir responsabilidade ao governo boliviano pela produção e tráfico de cocaína. "Incriminar um governo é diferente de dizer que da Bolívia vem droga."

Anteontem, Dilma já havia criticado a atitude do tucano. Ela qualificou as declarações do adversário como tentativa de "demonização" da Bolívia.

De acordo com a petista, a Polícia Federal e o Ministério da Justiça estão colaborando "intensamente" com a Bolívia no combate ao narcotráfico. Ela disse ter conversado na quinta-feira com o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, que a informou sobre uma atuação conjunta entre os dois países que culminou com o fechamento de um laboratório de produção de cocaína.

"É preciso que haja conversa entre os ministérios da Justiça", propôs Dilma. E reiterou: "É prudente não atribuir, sem informações e provas, responsabilidades ao governo boliviano. Não é papel de estadista fazer isso."

Pressão. Serra declarou que é "impossível" que até 90% da cocaína consumida no Brasil venha da Bolívia sem que o governo do país vizinho "faça corpo mole". "Eu acho que o governo brasileiro deve pressionar o governo boliviano fortemente, não pela força, mas pela pressão moral, no sentido de que combata a exportação da coca para o Brasil", defendeu.

Segundo o tucano. para poupar a juventude brasileira "desta verdadeira peste, desta praga que é a cocaína e o crack, é preciso atuar nas origens". "Não é só reprimir o traficante local, não é só fazer o tratamento do jovem. Combater contrabando é muito difícil, mas é mais fácil combater o contrabando no país de origem que no de destino, porque tem uma cadeia produtiva, tem a colheita, o transporte, a manufatura", argumentou.

Discurso. Pouco depois da sessão de fotografias de Lula e Evo Morales, a entrevista coletiva do boliviano, que estava agendada para as 16 horas, foi cancelada. O presidente boliviano se recusou a responder a perguntas de jornalistas e deu apenas um palpite sobre a Copa do Mundo: "O Brasil será campeão".

Antes, em discurso na reunião plenária de cúpula, no início da tarde, Morales foi muito aplaudido. "Precisamos salvar a humanidade e a natureza do capitalismo", defendeu. Para ele, criou-se uma "anticivilização" em que tudo vira mercadoria. "Essa anticivilização está levando à destruição do planeta", discursou.

O presidente boliviano comparou a colonização da América a um "genocídio" e afirmou que a riqueza de civilizações europeias foi construída à custa de "sangue e ouro do nosso continente". "Uma civilização não se faz com guerras, balas e bases militares. Não haverá paz enquanto não existir justiça social." / COLABORARAM EVANDRO FADEL E ÂNGELA LACERDA

Posição

Marina Silva foi evasiva ao comentar o assunto. "A relação de respeito entre os países é fundamental. Minha postura tanto no aspecto multilateral quanto no bilateral é de respeito."

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