ED FERREIRA/AE
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Lula aprovou mudança de tom de Dilma

Marqueteiro petista resistiu à ideia com medo de a candidata perder votos, mas presidente pediu estratégia contra polêmica do aborto

Vera Rosa e Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2010 | 00h00

A mudança de estratégia na campanha de Dilma Rousseff (PT) foi aprovada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em conversas com auxiliares, Dilma avaliou como "muito acertado" o tom mais contundente da candidata do PT à Presidência no debate de domingo, realizado pela TV Bandeirantes.

O marqueteiro João Santana resistiu o quanto pôde a adotar a nova tática, sob o argumento de que quem bate perde votos. Até mesmo o presidente Lula chamou Santana para um tête-à-tête e cobrou dele nova tática para enfrentar a polêmica do aborto e a investida do adversário do PSDB, José Serra.

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, disse que o comando da campanha de Dilma decidiu subir o tom contra Serra para "desmascarar" o tucano. "Serra faz uma campanha na TV e outra nos subterrâneos da política e precisávamos mostrar isso", afirmou Dutra.

Para Lula, a posição mais incisiva de Dilma no duelo com Serra mostrou para os eleitores uma mulher com decisões próprias, capaz de rebater críticas sem a sua ajuda. "Dilma se colocou no debate do segundo turno, que é o confronto de propostas", comentou Marco Aurélio Garcia, assessor de Assuntos Internacionais da Presidência. Ele tirou férias há mais de dois meses para coordenar o programa de governo da candidata.

Indagado se a campanha petista não adotara estratégia de alto risco ao optar por mais agressividade, Garcia justificou: "Arriscar é ficar levando porrada e não responder", disse. No diagnóstico do assessor de Lula, Serra procurou desqualificar Dilma, mas "ficou incomodado" com o "tom forte" adotado por ela, que tratou de temas como aborto, privatizações e segurança pública. "Não foi uma agressividade gratuita. Ela ficou indignada com as acusações e reagiu", insistiu o secretário de Mobilização do PT, Jorge Coelho. "Dilma conseguiu levantar os militantes."

6ª reunião. Na tentativa de esvaziar a polêmica sobre o aborto, a candidata do PT tem mais um encontro previsto para amanhã com líderes evangélicos, em Brasília. Desde o início do segundo turno, esta será a 6.ª reunião que Dilma fará com representantes de entidades religiosas ou que cuidam de crianças.

Além disso, a campanha também pretende divulgar nesta semana os 13 Compromissos de Dilma com o Brasil - um programa de governo resumido que vai destacar pontos como a defesa da democracia, da liberdade religiosa e de imprensa.

Na prática, a plataforma de Dilma está pronta desde o primeiro turno, mas foi arquivada. Agora, depois de uma série de conflitos com a imprensa e confusão com religiosos, o comitê petista entendeu ser necessário fazer ajustes no texto para desfazer o que classifica como "intrigas".

Comício. O presidente Lula estreou ontem à noite no primeiro comício do segundo turno, em Ceilândia, a mais populosa cidade satélite de Brasília, com 600 mil habitantes.

Lula, que continua a chamar mais a atenção dos eleitores do que a candidata petista, buscou levantar o ânimo de Dilma e pediu aos presentes que gritassem o nome dela. Disse que nos seus oito anos de mandato recuperou a autoestima do povo brasileiro. Afirmou que Dilma não permitirá que o Brasil volte a ser dependente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Lula disse ainda que escolheu Dilma para ser candidata do PT porque ela não tinha o "vício de outros" que se apresentavam como candidatos só porque tinham tido algum cargo eletivo. "Preferi ela, que tinha o vício do trabalho, de trabalhar 14 horas por dia." Pediu também para que ninguém fique de salto alto, porque é preciso transformar a eleição numa profissão de fé, com trabalho ininterrupto.

A petista - cujo desempenho na cidade ficou aquém das expectativas no primeiro turno - procurou demonstrar a força da família, num momento em que a campanha vive uma guinada religiosa em torno da discussão sobre o aborto.

Tanto Lula quanto o candidato a governador do DF pelo PT, Agnelo Queiroz, subiram ao palanque acompanhados de suas mulheres, Marisa Letícia e Ilza Maria, respectivamente. Dilma procurou passar às cerca de 3 mil pessoas que compareceram ao comício, segundo a Polícia Militar, a imagem de que está com muita força junto ao presidente Lula. / COLABOROU JOÃO DOMINGOS

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