Jorge Silva/Reuters
Jorge Silva/Reuters

Lula critica EUA em cúpula sul-americana

Em encontro da Unasul, presidente brasileiro disse ter feito 'o que Obama tinha mandado' em negociações com Irã

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2010 | 00h00

Com duras críticas aos Estados Unidos e aos governantes da região nos anos 80 e 90, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou ontem o seu "testamento" para a União das Nações Sul-americanas (Unasul), bloco criado por sua iniciativa.

Lula recordou a primeira reunião da entidade, em Cusco (Peru), em 2004, marcada pelo "desconhecimento e desconfiança" entre os líderes. Em seguida, destacou sua percepção de que o bloco tornou-se hoje um "ator global" orgulhoso de seu crescimento e deixou de receber receituários econômicos de um "secretário de terceira categoria".

Em discurso de 32 minutos na reunião de cúpula do bloco, Lula afirmou ter sido a Unasul palco até mesmo de "milagres da política". Referiu-se ao abraço dado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em seu colega colombiano, Juan Manuel Santos, logo depois de sua posse.

Colômbia e Venezuela mantiveram-se em atrito constante nos últimos anos. O gesto foi imediatamente reproduzido por Chávez, enquanto Lula ainda discursava. O presidente, entretanto, ressaltou que o bloco não avançou o quanto gostaria.

Soberania. "Queria dizer para vocês uma coisa: briguem, divirjam, discutam. Se não der para tomar decisão em uma reunião, não tem problema, tomem na outra", recomendou. "O que é importante é que não se pode abrir mão, em momento algum, de construir uma América do Sul forte, sem analfabetos, sem desnutrição, com avanço científico e tecnológico. Mas, sobretudo, uma América do Sul onde cada cidadão sul-americano tenha orgulho de ser do jeito que nós somos."

Ao enaltecer a Unasul, Lula criticou os governantes sul-americanos das décadas de 80 e de 90 por não terem avançado na integração regional e também por terem aceitado os modelos econômicos ditados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses programas, ressaltou ele, eram vazios de conteúdo social.

O presidente brasileiro também relatou sentir-se ofendido quando via, no passado, fotos nos jornais dos técnicos do FMI desembarcando no Brasil. ao final de cada ano, para negociar as condições de novos empréstimos. Para ele, esses governos agiram de forma "submissa às elites" e desprezaram o conceito de soberania.

"Alguns países precisaram ser refundados", declarou Lula, valendo-se de um termo caro aos líderes alinhados ao bolivarianismo - além de Chávez, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.

Acordo com Irã. O alvo favorito de Lula, entretanto, foram os Estados Unidos e seu presidente, Barack Obama. Em improviso, o presidente brasileiro deixou claro que ainda não deglutiu a reação americana ao anúncio do acordo na área nuclear entre o Brasil, a Turquia e o Irã, em maio passado.

O Departamento de Estado declarou, no dia seguinte, contar com os votos necessários dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas para aplicar novas sanções contra Teerã, aprovadas dias depois apesar do voto contrário do Brasil, que ocupa um assento não-permanente. Para Lula, os EUA jamais poderão resolver essa questão com o Irã porque o país é um "criador de problemas".

"Não me esqueço nunca o que aconteceu comigo. Vou guardar para contar para os meus bisnetos", afirmou, sobre o episódio. "Fizemos o que o Obama tinha mandado", completou, referindo-se a uma carta de teor dúbio enviada pelo presidente norte-americano antes da viagem de Lula a Teerã.

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