''Lula deveria sair do Brasil em 2011''

As eleições presidenciais de 2010 marcarão o fim do PSDB paulista e deixarão como herança o desafio para a oposição de se "refundar", na visão do mais prestigiado brasilianista dos Estados Unidos, Riordan Roett.

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Observador atento de todas as eleições no País desde o início dos anos 60, Roett está certo da vitória da candidata do PT, Dilma Rousseff. Para esse especialista em Brasil, o tucano José Serra é "um candidato terrível" que concorre, de fato, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Lula é o candidato", afirmou Roett ao Estado na semana passada, quando lançou nos EUA seu novo livro sobre o País, The New Brazil.

Na opinião de Roett, Lula não deve interferir em um eventual governo Dilma. "Lula deveria sair do Brasil (em 2011). Senão fisicamente, pelo menos simbolicamente."

Como o senhor avalia o fenômeno Lula?

Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Lula foram os melhores presidentes da história do Brasil. Os três mudaram o País. Lula entendeu o cenário internacional e a oportunidade de alçar o Brasil à condição de um Bric. Um aspecto importante foi o crescimento da economia mundial nos primeiros anos de seu mandato. Mas suas decisões, desde a campanha de 2002, foram essenciais para acalmar os mercados. Especialmente a manutenção da política econômica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O Bolsa-Família cresceu e teve amplo impacto social. Foi a primeira vez, desde D. Pedro I, que a pobreza realmente caiu no Brasil.

O que ainda falta para o Brasil tornar-se um ator internacional relevante?

Faltaram as reformas no segundo mandato de Lula. Especialmente as da Previdência, a trabalhista e a política. A vida cotidiana também continua complicada, em termos de violência, de tráfico de drogas e de corrupção. Nesses pontos, o governo Lula fez menos do que poderia.

As últimas pesquisas apontaram a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno das eleições. Como o senhor lê esse dado?

A vitória de Dilma é inevitável. Lula é o candidato. Além disso, Serra é um candidato terrível. Ele é muito inteligente e preparado para ser presidente. Mas, como candidato, vai muito mal. Essa eleição marcará o fim do PSDB paulista. O PSDB está muito débil, em relação a 15 anos atrás. Com certeza, terá de ser repensado. Hoje, não há liderança nacional no partido, além de Aécio Neves. Há governadores competentes, mas não líderes como FHC. O DEM também está debilitado. Isso não é bom para o processo democrático. Acho que Lula e Dilma entendem isso. Dilma é competente. Mas seu candidato a vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP), é um cacique político, um horror. A parceria PT-PMDB vai dificultar a partilha dos cargos públicos. O PMDB vai pleitear os postos com orçamentos mais fartos.

O senhor acha que há risco de o Brasil tornar-se uma presa do PT, como o México foi do PRI ao longo de quase 100 anos?

A dinâmica política brasileira é muito diferente da do México. Vão aparecer outros líderes na oposição, novas coalizões.

O senhor vê riscos de ações mais radicais, como o cerceamento da mídia, virem à tona em um eventual governo de Dilma?

Essa é a linha do Marco Aurélio Garcia (assessor da Presidência para Assuntos Internacionais). A Dilma não tem o jogo de cintura, é novata no PT e não é uma figura internacional, como o Lula. Dificilmente, ela conseguirá conter essas pressões internas do PT. O Brasil tem instituições sólidas para conter uma virada bolivariana. Mas nunca se sabe como os políticos vão agir. É preciso, antes, saber o que o Lula vai fazer.

O que o senhor imagina?

Ele deveria partir para um cargo internacional, como líder de uma campanha contra a pobreza na ONU, por exemplo. Lula deveria sair do Brasil. Senão fisicamente, pelo menos simbolicamente. Deve deixar o Planalto funcionar, sem se intrometer no governo de Dilma.

O presidente ocupou o programa eleitoral de Dilma para defendê-la do escândalo da quebra de sigilo fiscal de pessoas ligadas a Serra. Essa intromissão é um mau sinal?

Isso é fofoca de campanha. Não vai ter nenhum impacto. Durante o escândalo do mensalão, em 2006, Lula conseguiu preservar sua imagem e ser reeleito. Dilma colaborou muito para que ele não fosse atingido. No governo Dilma, essa função caberá à Casa Civil. Uma figura importante em seu governo, certamente, será o Antonio Palocci.

Depois do episódio do Irã, o presidente Lula ainda terá chance de ser um ator importante no cenário internacional?

No Terceiro Mundo, a imagem de Lula não sofreu nada. Nos EUA, sim. A relação bilateral está debilitada. Será importantíssimo que o Marco Aurélio Garcia saia do governo. Meus colegas estão aterrorizados com a possibilidade de ele ser indicado para o Itamaraty.N

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