Lula diz que corrupção só aparece porque o governo fiscaliza

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na manhã desta quinta-feira, em entrevista à rádio CBN, que a corrupção só está mais aparente porque o governo está fiscalizando. Ao comentar em especial o caso da máfia das sanguessugas, Lula disse que a operação de superfaturamento de ambulâncias começou a ser desvendada por uma investigação da Polícia Federal. Afirmou que como parte desse esforço para acabar com a corrupção, o governo vem investindo no fortalecimento da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da República e ressaltou que já está em andamento uma transformação da máquina pública para assegurar uma maior eficiência no combate à corrupção. O presidente destacou a necessidade de investigar sigilosamente esses crimes em um primeiro momento, para não "espantar as andorinhas". "Nós temos que fazer da forma que a polícia moderna faz. Fazer uma coisa sigilosamente para pegar a ninhada inteira. E ela está sendo pega", acrescentou.Reforma da PrevidênciaLula evitou confirmar se pretende ou não fazer a reforma da Previdência caso venha a ser reeleito nas próximas eleições. Desviando sucessivamente de perguntas diretas sobre o tema, disse acreditar que este é um assunto que sempre deve ser discutido por um governo. Durante a conversa, o presidente também afirmou que déficit da previdência é algo que foi programado no momento em que a Constituição de 1988 incluiu milhões de brasileiros no recebimento de benefícios. "O déficit brasileiro é um déficit do Estado brasileiro. É uma opção que a constituição de 1988 fez". Mesmo assim, o presidente destacou esforços do governo federal para melhorar a eficiência do sistema previdenciário, como o recadastramento de beneficiários e a compra de 26 mil computadores para o INSS, e insistiu que a estratégia do governo de geração de empregos por si só será um fator importante para ajudar a amenizar o déficit da previdência. Reforma tributáriaLula também lançou sobre seus adversários políticos e "alguns governadores" a responsabilidade pela não conclusão da reforma tributária. O presidente disse ter feito sua parte em 2003, quando conseguiu aprovar as mudanças relacionadas ao governo federal, apontou a necessidade de acabar com a pendência da redução de alíquotas de ICMS. "Isso vai ser votado quando o congresso quiser, está pronto. Os meus opositores não querem votar e alguns governadores não querem votar porque querem continuar a guerra fiscal", acrescentou. Inclusão socialOutra medida importante para o presidente será manter uma forte política de inclusão social, favorecendo a parte mais necessitada da população. Lula admite que, apesar do País ter crescido nos últimos anos, não houve distribuição de renda. "Se nós pegarmos o milagre brasileiro, na década de 70, vamos perceber que o Brasil chegou a crescer a 10%. No entanto, quando chegamos na década de 1980, ocasião em que tivemos que pagar a dívida, o povo estava mais pobre e o Brasil mais endividado". Na avaliação de Lula, não há momento na história em que o País tenha uma combinação de fatores tão positivos como agora para obter um crescimento de 5% a 6%, de forma sustentável, e entrar definitivamente na lista das nações mais desenvolvidas. "Eu já fui convidado três vezes para participar da reunião do G-8. Espero que, um dia, o Brasil não seja convidado, mas que faça parte dos oito países mais ricos do mundo". Crise energéticaSegundo Lula, o Brasil será independente de qualquer outro país no que se refere à área energética até 2008. Essa foi a conclusão de uma reunião realizada pelo Conselho Nacional de Política Energética logo após a Bolívia ter anunciado que iria nacionalizar as reservas de hidrocarbonetos. "Nós decidimos que até 2008 nós vamos deixar de ser dependente de qualquer país do mundo em se tratando de energia", afirmou o presidente.E disse também que há um acordo de 19 anos em andamento e que deve ser cumprido. Lula voltou a defender a legitimidade da decisão boliviana de nacionalizar suas reservas, mas destacou que, caso sejam colocadas propostas de estatizar ativos da Petrobras na mesa, os bolivianos "sabem que terão que pagar o preço".O biodiesel aparece atualmente entre os pontos de uma "revolução" que está em andamento no Brasil como um todo, inclusive no setor energético. Segundo Lula, o País produzirá 840 milhões de litros do combustível no ano em 2007, gerando 210 mil empregos no campo. JurosEm relação aos juros, disse que deverá continuar com a política econômica atual em um eventual segundo mandato e que manterá o ritmo de queda gradual nos juros. Segundo Lula, não há intenção de que seu governo corra riscos na economia. "Nós resolvemos que as coisas aconteçam paulatinamente", comentou o presidente, salientando que deseja que a taxa de juros caia gradativamente até que se consiga atingir um padrão que dê ao Brasil as mesmas condições de outros países. "Quanto a gente senta na cadeira de presidente, tem que tratar o País como se senta numa cadeira à frente dos seus filhos ou da sua mulher. Você não pode mentir para eles, não pode fazer falsa promessa, precisa dizer o que pode fazer."De acordo com Lula, a diferença entre as eleições de 2006 e 1998, quando Fernando Henrique Cardoso foi eleito pela segunda vez à Presidência da República, é que, naquela ocasião, o então presidente foi "pego de surpresa, numa guinada no mercado que mudou o câmbio", numa referência à grande desvalorização do real frente ao dólar realizada meses após a eleição."O que nós fizemos nesses 44 meses de governo foi uma grande revolução neste País, em se tratando de macroeconomia. Há um tempo atrás, quando os Estados Unidos espirravam, nós pegávamos pneumonia. Hoje os Estados Unidos espirram e nós falamos saúde."O presidente comentou que a geração de empregos no Brasil depende do sucesso das decisões da política econômica e que, durante os 44 meses de seu governo, "90% dos acordos salariais" foram corrigidos com valores acima da inflação, o que não acontecia, segundo ele, há 20 anos.Terceirização e privatizaçãoEle criticou a terceirização de empregos no governo federal, alegando que esta foi a forma de o Estado se livrar da responsabilidade de administrar o País. Questionado se possui algum plano de privatizações para um eventual segundo mandato, Lula não descartou totalmente a possibilidade na área de estradas, mas evitou tratar do assunto como uma estratégia de seu governo. "Nós faremos concessões na medida em que os preços forem compatíveis com o poder de pagamento", disse o presidente, acrescentando que o que não se pode fazer é "extorquir o povo brasileiro" com pedágios caros demais. "Se tiver alguma estrada que economicamente seja necessário privatizar nós vamos fazer", emendou.Ao comentar o assunto das privatizações e terceirizações, Lula aproveitou para relembrar o "apagão" de 2001. Segundo ele, os leilões de linhas de transmissão feitos em seu governo são um exemplo do que deveria ter sido feito antes mas nunca foi aplicado. Ele disse ainda que o Brasil está preparado a ponto de permitir que sejam abertos processos de licitação ainda este ano para duas novas hidrelétricas. (Colaboraram Fredy Krause e Paulo R. Zulino)

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