Lula é o Plano Real de Dilma

O jornal O Globo em sua edição do ultimo domingo, deu espaço para que 15 escritores, empresários e jornalistas escrevessem pequenos textos sobre o "vazio de ideias e ausência de reflexão" nas eleições deste ano. Será que a campanha atual é tão diferente das anteriores? Falta mesmo reflexão?

Jairo Nicolau, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Tenho uma avaliação diferente da feita pelos 15 analistas. Não acho que seja a ausência de ideias a principal razão para que a campanha esteja produzindo desinteresse - e em alguns setores, um certo enfado - pela disputa presidencial neste ano.

A questão central é que a disputa perdeu a competitividade. No pleito presidencial - e, em Estados importantes, para governador - um candidato abriu uma distancia enorme em relação a seus competidores. E disputas assim afetam o interesse do eleitor.

Desculpem a metáfora futebolística. Mas campeonatos em que um time abre uma vantagem muito acentuada em relação a seus adversários tendem a levar muito menos público aos estádios e mobilizar pouco os torcedores.

Quem acompanha política imaginava que este ano teríamos uma disputa acirrada entre os dois principais candidatos, Serra e Dilma. Os analistas desenhavam uma subida lenta de Dilma, com alta probabilidade de a disputa ser resolvida em um segundo turno.

O crescimento avassalador de Dilma surpreendeu a todos. Quem imaginaria que a candidata petista estaria à frente nas pesquisas em todos os Estados da Federação? A campanha de José Serra não se preparou para isso. Afinal, o ex-governador de São Paulo liderou as pesquisas por mais de um ano e sua adversária era uma ministra nunca testada nas urnas.

A disputa de 2010 lembra o que aconteceu em 1994. Lula liderava as pesquisas desde o começo do ano anterior. Em maio de 1994, Lula aparecia com mais de 50% das intenções de voto para a Presidência. A história é conhecida: o governo Itamar Franco lançou em 28 de fevereiro um plano econômico de estabilização monetária. O ápice do programa de estabilização foi a criação de uma nova moeda, o Real, em 1º de julho. O plano derrubou a inflação. Algumas semanas depois, o então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, ultrapassaria Lula. De maneira impressionante.

Os gráficos comparam a evolução da preferência de voto dos dois principais candidatos de 1994 (Fernando Henrique e Lula) com a evolução dos dois principais em 2010 (Serra e Dilma).

Observe que os dois candidatos que lideravam as pesquisas foram surpreendidos por seus adversários ao longo do mês de julho. Essas foram as únicas duas vezes, nas cinco eleições presidenciais disputadas desde 1989, que um candidato que liderava a disputa nos primeiros meses do ano perdeu a disputa.

Confesso que não me lembro que alguém tivesse reclamado de "vazio de ideias e ausência de reflexão" na disputa de 1994. Daquela disputa, ainda lembro da aulas de Brizola na televisão, explicando num quadro como o Real era prejudicial à população. Lembro da dificuldade de o PT encaixar um discurso de campanha; do Dominguinhos cantando o excelente jingle de Fernando Henrique; e do escândalo da parabólica, que deu dias de munição à campanha petista.

2010 é 1994 pelo avesso. Uma diferença notável é o jingle de campanha de Dilma. Certamente um dos mais sem graça da história eleitoral brasileira.

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