Renato Cobucci/Jornal Hoje em Dia
Renato Cobucci/Jornal Hoje em Dia

'Lula não verá uma oposição como a que o PT fez com FHC'

Aécio evita polemizar com PSDB paulista, mas deixa clara disposição de[br]ser protagonista no retorno ao Congresso

Eduardo Kattah ENVIADO ESPECIAL / CAETÉ, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2010 | 00h00

Na primeira aparição após a eleição de Dilma Rousseff (PT), o ex-governador de Minas e senador eleito, Aécio Neves, evitou polemizar com o PSDB paulista, reiterando os elogios ao candidato derrotado José Serra. Mas deixou clara a disposição de protagonizar a oposição no seu retorno ao Congresso, mobilizando o Parlamento para construção de agenda pela aprovação das reformas política e tributária. Em entrevista coletiva, defendeu a participação dos governadores do PSDB na construção de um projeto de poder, rebateu a declaração do presidente Lula, que pediu atitude não-raivosa da oposição, e disse que, ao contrário do comportamento do PT, a oposição no governo Dilma será não só responsável e generosa com o Brasil, como terá o dever de apresentar agenda propositiva no Congresso.

Ficou chateado por não ter sido citado no discurso de encerramento da campanha de Serra?

Não, de forma alguma. Conversei com o governador Serra longamente após a eleição. Ele fez a citação nominal de figuras ali presentes. Nós devemos fazer política sempre com grandeza. No plano nacional fizemos um bom combate, lutamos como poderíamos lutar. Mas a vitória eleitoral e a vitória política nem sempre caminham na mesma direção. Perdemos as eleições, mas fizemos uma campanha defendendo valores, princípios, capitalizando um sentimento difuso na sociedade brasileira, externado por mais de 40 milhões de brasileiros em relação à defesa da democracia, da liberdade de imprensa, em defesa do não aparelhamento da máquina pública, nós também devemos colher vitórias nessa eleição. Portanto, se não venceu eleitoralmente, o PSDB se fortalece politicamente, porque se aproxima de setores da sociedade dos quais estávamos distanciados. O grande desafio que temos pela frente é avançar na construção de nosso discurso, na estruturação de nosso partido.

Serra disse que a luta continua e, em vez de adeus, deu um "até logo". É um recado de que pode tentar disputar a Presidência? O sr. já foi colocado como uma possibilidade para 2014, como é que vai ficar isso dentro do PSDB?

Estamos em 2010, sequer 2011 chegou. A candidatura presidencial, qualquer que seja ela, precisa acontecer com naturalidade. A hora é de fortalecer o partido. É absolutamente natural que Serra continue participando do processo político, sempre haverá espaço para uma figura da sua dimensão política. Foi um guerreiro, disse isso a ele quando ele me telefonou logo após a eleição. Defendeu com bravura nossas bandeiras e deve deixar esta campanha de cabeça erguida. Todos nós nos orgulhamos do papel que ele desempenhou.

O sr. vai trabalhar pela nacionalização do partido?

É extremamente importante que façamos, a partir dessa eleição, um diagnóstico dos problemas que tivemos. O PSDB, em pelo menos 10 Estados é, do ponto de vista regional, frágil. Teremos um período para buscar, atrair em torno de propostas, de um projeto moderno, de uma visão nova de Brasil, atrair forças políticas em Estados onde disputamos fragilmente essas eleições. Esse é um dos novos desafios para a direção partidária.

O sr pode ser líder da oposição? Como o sr. pretende recompor a oposição no Senado?

Não me autoproclamo líder de nada. Tenho um papel, delegado pela população de Minas Gerais como senador e vou cumpri-lo, com extrema determinação. Um senador tem responsabilidade com o Brasil, e eu quero ajudar o Brasil a construir uma agenda que seja a agenda do Estado brasileiro. Questões como a reforma política, como a reforma tributária direcionada para a diminuição da carga tributária. A própria reforma do Estado brasileiro, profissionalização do setor público, a refundação da Federação, portanto o fortalecimento de municípios e de Estados constitui um núcleo de uma agenda pela qual eu lutarei. Essa será a minha missão.

Tem fundamento a preocupação do presidente Lula em relação a uma oposição raivosa, durante o governo Dilma?

Exerceremos uma oposição responsável, atenta e vigorosa na fiscalização das ações do Executivo, mas generosa para com o Brasil. O presidente pode ficar tranquilo porque não verá no Brasil uma oposição como a que o PT fez com relação ao presidente Fernando Henrique, propondo "Fora FHC", impeachment, afastamento do presidente, ou votando contra matérias tão relevantes para os brasileiros como a estabilidade da economia, o Plano Real, como a Lei de Responsabilidade Fiscal.

O que o sr. acha da tese defendida pelo presidente do PSDB, Sérgio Guerra, de que próximo candidato tucano à Presidência seja escolhido em 2012?

Não é hora de falar sobre isso. Estamos saindo de uma eleição, no caso de Minas extremamente vitoriosos. São 10 governadores de oposição, que governam 52% da população e mais de 50% do PIB nacional. Antes de termos um nome, é preciso que tenhamos um projeto. Não podemos novamente deixar para o início do processo eleitoral a difusão das nossas ideias e das nossas propostas. O PSDB tem responsabilidade e todas as condições de construir um projeto alternativo para o País.

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