Lula quer fim de ''puxadinho'' no Planalto

Em reunião com Niemeyer para discutir reforma do Palácio, presidente teria reclamado de gambiarras, mofo e goteiras

Tânia Monteiro e Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

O mais importante endereço de Brasília, o Palácio do Planalto, onde despacha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está cheio de goteiras, mofo e gambiarras e precisa de uma revitalização urgente. A avaliação é do próprio Lula, que ontem se encontrou com o arquiteto Oscar Niemeyer para discutir uma reforma geral. "Uma favela!", teria dito o presidente, segundo pessoas que acompanharam a conversa.Lula se queixou ainda do excesso de salas e paredes que, na avaliação do presidente, descaracterizaram o projeto original de Niemeyer, inaugurado por Juscelino Kubitschek em 1960. "Muitos presidentes que passaram por aqui fizeram pequenas modificações que desfiguraram o palácio", avaliou Lula. Grande parte dos puxadinhos e gabinetes foi erguida, no entanto, para abrigar os apadrinhados do atual governo.Estima-se que mais de 600 pessoas trabalham nos quatro andares e no subterrâneo do prédio principal. A meta é transferir 400 funcionários para outros prédios da Esplanada dos Ministérios. Atualmente, há 1.750 funcionários (já foram 3 mil) em todo o palácio, o que inclui os prédios anexos. Fala-se até em construir um quinto edifício.Desde que o governo anunciou que, em junho de 2008, fecharia o palácio para reforma, ministros e assessores começaram a briga por quem voltaria a trabalhar em salas próximas do presidente. Assessores lembram que, na vida política de Brasília, trabalhar ao lado do presidente é símbolo máximo de status e poder.Dos quatro ministros que despacham no Planalto, apenas a candidata de Lula para a sucessão de 2010, Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, e Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social, têm espaço garantido no prédio quando a reforma terminar. Eles ocupam salas que estavam previstas no projeto de Niemeyer. Já os ministros Jorge Armando Félix, do Gabinete de Segurança, e José Múcio, da Secretaria de Relações Institucionais, ocupam gabinetes do 4º andar que estão num espaço onde antes era um vão livre. Lula quer novamente a área aberta, sem puxadinhos.A reforma deve durar 14 meses. O governo pretende aproveitar o recesso de fim de ano para iniciar a mudança temporária do gabinete presidencial para o Centro Cultural Banco do Brasil, a 5 quilômetros da Praça dos Três Poderes. O Palácio do Buriti, um outro prédio da época da fundação da cidade, também poderá ser usado por Lula durante o período de reforma do Palácio do Planalto.O presidente espera reabrir o Planalto em abril de 2010, na festa de 50 anos de Brasília. Até agora, no entanto, o governo não lançou edital de licitação para o começo das obras. Num momento em que faz apelos a empresários para manter o otimismo, Lula teme, segundo assessores, que o prédio onde trabalha vire símbolo da falta de investimentos e mais um projeto parado. A ordem é gastar com a reforma.BIBLIOTECAOntem, Niemeyer, ao lado da mulher, Vera, participou de uma cerimônia em outra obra que projetou em Brasília: a Biblioteca Nacional, inaugurada há dois anos, mas que seguia sem poder atender o público. O prédio, juntamente com o Museu da República, que já está em funcionamento, forma o Conjunto Cultural da República e começou a receber acervo. Até agora, 50 mil livros foram doados por editoras, universidades e fundações de pesquisa para o local, cuja construção custou R$ 42 milhões. O Ministério da Cultura prometeu R$ 2 milhões para compra de livros e o edifício tem capacidade para 250 mil livros.A idéia original era que a Biblioteca Nacional de Brasília abrigasse uma duplicata de cada obra existente na Biblioteca Nacional do Rio, criada há 200 anos, com a chegada da família real ao Brasil. A proposta foi, no entanto, logo descartada, por falta de lugar.Além de não ter se preocupado com a aquisição de obras para a biblioteca, o governo do Distrito Federal, responsável pela construção do prédio, também não seguiu à risca o projeto original de Niemeyer. Conclusão: R$ 8 milhões foram gastos em adaptações do prédio.

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