Lula se emociona e qualifica como barbárie morte de menino

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva definiu nesta sexta-feira como "um gesto de barbaridade" a morte do menino João Hélio Fernandes, de 6 anos, arrastado por sete quilômetros preso ao cinto de segurança depois de um assalto em que o carro de sua mãe foi roubado. Emocionado, Lula afirmou: "Isso não está no racional da humanidade e do mundo animal. Está no irracional da humanidade e do mundo animal". No discurso de improviso, durante o lançamento da campanha contra a exploração sexual de crianças e adolescentes, o presidente avaliou que a redução da maioridade penal não resolve o problema da criminalidade e, falando sobre o tema, cometeu uma gafe, ao trocar o verbo aumentar por diminuir. "Nós não podemos incorrer no erro de absolver o Estado brasileiro (...), de entender que nós poderemos diminuir a pena (sic) para os menores e achar que está resolvido o problema", afirmou. Na sua avaliação, é preciso rediscutir os "valores humanos" para saber "onde erramos", em que momento Estado e sociedade falharam e o que é preciso ser feito. Para Lula, as barbaridades não se resolvem com o aumento da punição. Argumentou, ainda, que o Estado não pode agir "emocionalmente" porque a sociedade só "acertará" se houver prudência nessa discussão. "O problema não é apenas mais uma lei, mais um policial ou Justiça", insistiu o presidente. De acordo com ele, se o problema for encarado assim, mais erros podem ser cometidos. "Nós corremos o risco de absolver o Estado, que, ao longo das quatro últimas décadas, foi responsável por essa geração de jovens empobrecidos e desesperançados. Nós corremos o risco de absolver o Estado e condenar os jovens por culpa do Estado brasileiro". Criminalidade e família Muito aplaudido, Lula destacou a importância das relações na família para diminuir a criminalidade e disse que o Estado sozinho não resolverá a situação. No seu diagnóstico, o problema da violência atinge não apenas as classes sociais pobres como as médias e ricas, "letrados e não letrados, religiosos e não religiosos, cristãos e ateus". O presidente afirmou ainda que o problema é muito mais grave "do que a mente humana tem capacidade de perceber". "É de se perguntar o que leva um ser humano a praticar determinada atitude. Nos Estados Unidos, jovens matam nas escolas, na Rússia, onde educação não é problema, jovens invadem escolas. No Brasil, jovens entram em cinema, atiram e matam pessoas e muitas vezes reduzimos a violência apenas à pobreza. Será que é apenas a pobreza a questão de tanta barbaridade?", perguntou. Para ele, a sociedade brasileira só "acertará" se tiver prudência de estudar o que leva um jovem de 17 anos a praticar barbaridades contra uma criança ou um pai a estuprar uma filha. Foi neste momento que contrapôs o racional ao irracional e mencionou o mundo animal. Citou, ainda, problemas de violência em outros países, como a invasão da escola de Beslan, na Rússia, e os assassinatos de adolescentes em escolas de várias cidades nos Estados Unidos. Lula contou à platéia que uma vez assistiu a um documentário da Nicarágua no qual uma menina de 10 anos engravidou e a discussão se ela deveria ou não fazer aborto chegou até à igreja. "Isso tudo porque alguém achava que ela deveria ter (a criança)", observou. O presidente não defendeu explicitamente o aborto em casos de estupro, mas suas declarações deram margem a essa interpretação. "Não é um tema fácil, é um tema difícil porque envolve paixão e emoção, envolve a perda de jovens", disse o presidente.

Agencia Estado,

09 Fevereiro 2007 | 22h32

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