Lutaram um contra o outro. No interior de SP, viraram amigos

Sangiacomo foi da Marinha italiana; Luizon, expedicionário brasileiro. Em Taquarituba, moravam a menos de 80 metros de distância

Edison Veiga,

25 Agosto 2012 | 15h45

As vidas de João Luizon e de Michele Sangiacomo têm muito em comum. Ambos são de origem italiana e se mudaram nos anos 1950 para Taquarituba, pequena cidade paulista, a 320 km da capital. Na época, os dois trabalhavam na compra e venda de cereais e tinham lutado na 2.ª Guerra. Mas em lados opostos.

Nascido em Sartriano di Lucania, no sul da Itália, Michele tinha 16 anos em 1942, quando se alistou na marinha italiana. "Guerra é guerra. Mesmo sendo menor de idade, eles aceitavam", lembra ele, hoje com 86 anos. Não foi por ideologia nem por patriotismo. "Precisava era de emprego. Virei radiotelegrafista, embarcado no Mediterrâneo."

Na mesma época, João, nascido em Bernardino de Campos (SP), era convocado. Filho de um italiano que havia migrado para o Brasil justamente para fugir do horror da 1.ª Guerra, ele tinha 19 anos e seria um dos 25.334 homens que o Brasil enviaria para lutar na 2.ª Guerra. "Ele sempre foi muito patriota. Orgulhava-se de ter combatido em Monte Castelo", conta uma de suas três filhas, a dentista Regina Luizon Gomes, de 55 anos – João morreu em 2006, aos 82.

Quando chegaram a Taquarituba, menos de uma década depois do fim da guerra, a cidade tinha pouco mais de 7 mil habitantes. João e Michele se tornaram vizinhos. Uma casa a menos de 80 metros da outra, na mesma Rua Marechal Floriano Peixoto. "Não chegamos a lutar diretamente, porque não estivemos nas mesmas batalhas. Mas poderia ter acontecido", comenta Michele, fazendo uma pausa longa, como que pensando no velho amigo. Emenda com um saudoso "Êêê, João véio...".

Amizade. "Eu via o João praticamente todo dia. A gente sempre estava conversando ali na esquina (diz, apontando para a Praça São Roque, quase na frente de sua casa). Quando ele começava a contar da guerra, a gente dava risada. Porque todo mundo sempre exagera um pouco, né? E eu fingia que não acreditava só para provocá-lo."

Apesar de nenhum dos dois ter seguido carreira militar, o passado sempre os orgulhou. "Meu pai era um pacifista, achava que os povos não podiam entrar em guerra", diz Regina. "Por toda a vida, foi muito correto, honesto, defensor da honra. Acho que esses valores foram fortalecidos por sua participação na Força Expedicionária Brasileira."

Em Taquarituba, João e Michele reconstruíram a vida. João casou e teve três filhas. Comandou uma beneficiadora de arroz, depois um mercadinho e, por fim, virou inspetor de alunos de escola pública. Apesar de nenhum dos filhos viver mais na cidade, sua casa continua lá, mobiliada. "Não perdemos a ligação com nossa origem", explica Regina.

Michele não casou nem teve filhos. Continuou vendendo cereais, comprou terras, virou agricultor. Hoje é aposentado. De vez em quando, espia pela janela de casa e vê a mesma esquina onde passava horas batendo papo com João. Tem saudades.

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