Mãe de garoto morto por PM desabafa: 'eu não desculpo'

Em entrevista a programa de televisão ela diz que confirmará em depoimento que não houve troca de tiros

Solange Spigliatti, estadao.com.br

10 de julho de 2008 | 09h52

"Não tem desculpa de secretário, governador. Nada vai trazer meu filho de volta." Este foi o primeiro desabafo de Alessandra Soares, mãe do menino João Roberto Soares, morto na segunda-feira, após ser atingido por tiros disparados por policiais militares na Tijuca, zona norte do Rio. Ela e seu marido, Paulo Roberto Soares, deram uma entrevista ao programa Mais Você, da TV Globo, que foi ao ar nesta quinta-feira, 10.   Veja também: PMs que mataram garoto têm prisão temporária decretada Córneas do menino morto são últimas do banco de olhos do Rio   Esta é a primeira vez que ela, que estava com os dois filhos em uma Palio Weekend que foi metralhada por PMs, na noite de domingo passada, concede entrevista. Visivelmente abalada, Alessandra não parava de chorar enquanto era entrevistada por Ana Maria Braga.   "Só eu sei o que estou passando. A sensação que eu tenho é que ele (governador) terá que dar desculpa para outras pessoas. Eles não estão fazendo nada para melhorar nossa segurança. Tenho outro filho e temo muito pela vida desse outro filho. Eu não desculpo. Eu olhava pro meu filho e dizia 'mamãe te ama'. Eu disse pelo amor de Deus, meu filho, abaixa. E ele perguntou 'por que mamãe?' Quando vi ele estava caído. E não havia troca de tiros. Eu vou falar no meu depoimento que eu não estava no meio de tiros. O carro passou a mil por hora do meu lado. Eu ouvi a sirene da polícia e encostei o carro pra polícia passar e eles pararam o carro atrás de mim e me alvejaram".   Ainda chorando muito, ela disse que não pode aceitar que seu filho se transforme em mais uma estatística da violência. "O nome dele é João Roberto, não é um número, não é uma estatística. Ele é um menino, criado com muito amor, que tiraram de mim".   Paulo Roberto, bastante emocionado, foi quem recebeu a apresentadora na casa de amigos. "O fato de estarmos nos expondo é para que essa atrocidade não aconteça em outras famílias. Que isso possa ajudar de alguma forma no preparo dos policiais. Que a opinião pública possa exercer sua parte e pressionar as autoridades, para que nós possamos ser bem resguardados, porque pagamos impostos e temos direito a isso.", disse o taxista.   "Queremos segurança, não queremos essa polícia que está aí. Sei que existem ótimos policiais, não são todos, não vou generalizar isso, mas do jeito que estão sendo colocados na rua, desta forma está errada. Em decorrência deste preparo perdi um filho de três anos, porque o cara não teve a coragem de mandar sair do carro. Pelo menos descia a criança. Se fosse um seqüestro teria refém. Se fosse bandido, ele não iria parar no meio da rua esperando a polícia, eles sairiam do carro atirando para se defender. O que aconteceu com minha família foi um absurdo", protestou.   Paulo Roberto terminou a entrevista fazendo um desabafo. "Tiraram a vida de um inocente. A sociedade tem que gritar, não é a punição que vai dar o conforto de ver dois bichos presos. A proposta é de as pessoas poderem sair de suas casas. As pessoas vivem presas com medo de balas perdidas. As crianças não brincam mais nas ruas, nos parques. Eu com cinco anos comprava pão pra minha mãe. A gente não tem mais isso. Acabou nossa liberdade. Tem que ser mudado. A gente vê o preparo da polícia. Eu vi na TV, o preparo dos policiais. Teve um que teve a coragem de falar que o primeiro tiro que deu foi numa incursão na favela. Meu filho não pode ter morrido em vão. Tem que ter mudança nesse sistema. Cabe ao governador e ao presidente trazerem o melhor pra gente".

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