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Mulher ‘veste’ filho de escravo e causa revolta nas redes sociais

Fantasia usada em festa de Dia das Bruxas de colégio particular em Natal repercutiu nas redes; MP abriu procedimento

Ana Paula Niederauer, Júlia Affonso, Renato Vasconcelos e Ricardo Araújo, especiais para o Estado

30 de outubro de 2018 | 13h49
Atualizado 31 de outubro de 2018 | 16h12

NATAL E SÃO PAULO - O Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte e a Promotoria de Justiça de Defesa da Criança e do Adolescente do Ministério Público do Estado abriram procedimentos para investigar o caso de uma criança que foi “fantasiada” de escrava pela mãe para uma festa de Dia das Bruxas de uma escola particular de Natal

As imagens foram publicadas no domingo, 29, pela mãe da criança, a jornalista Sabrina Flor. Nas fotos, o menino aparece usando maquiagem para simular cicatrizes e ferimentos no corpo. Vestida apenas com túnicas brancas e uma faixa na cabeça, a criança também usa imitações de correntes e grilhões, instrumentos aplicados em tortura e aprisionamento de escravos. 

“Quando seu filho absorve o personagem! Vamos abrasileirar esse negócio! #Escravo”, publicou a mãe no Instagram. A publicação revoltou internautas, que em seus comentários apontaram racismo e preconceito. O cantor Marcelo D2 republicou as imagens e entrou na discussão. “Quando você pensa que já viu de tudo na vida”, escreveu o cantor.

Depois da repercussão da publicação do cantor, a mãe voltou a se manifestar. “Não leiam livros de história do Brasil. Eles dizem que existiu escravidão de negros no País, mas isso é mentira. Não discuta com essa afirmação, pois você estará sendo racista, a pior pessoa, um lixo.”

Depois, ela pediu desculpas, fechou sua conta no Instagram e apagou as publicações. “Queria somente pedir desculpas pelo fato! Jamais foi minha intenção ofender alguém, estou extremamente arrependida por tudo o que aconteceu e me sentindo muito mal com xingamentos e ameaças horríveis que estão me mandando”, escreveu. 

O Colégio CEI, onde a criança estuda, lamentou a escolha da fantasia. “O Colégio CEI não incentiva nem compactua com qualquer tipo de expressão de racismo ou preconceito.” 

O professor de História da África da PUC-SP, Amailton Magno de Azevedo, avaliou como desnecessária a postura da mãe em fantasiar o filho de escravo. 

Segundo Azevedo, é uma abordagem ultrapassada, falida e deslocada e que faz reavivar uma mentalidade escravocrata. 

"O passado histórico ainda persiste no imaginário brasileiro. Temos que combater este tipo de postura, mirar na pluralidade e ter outra narrativa. O negro tem que ser inserido na sociedade de maneira mais digna", disse Azevedo.

Investigação

Segundo o MPF, o órgão recebeu diversas denúncias contra a publicação de Sabrina. “As informações serão avaliadas para que se decida pela instauração, ou não, de um inquérito”, informou, em nota. 

Coordenador do Núcleo de Combate à Corrupção e outro Ilícitos do MPF no Estado, o procurador Fernando Rocha criticou a publicação. “Sim, a escravidão existiu, não acabou e a sociedade brasileira não pode conviver com a banalização do mal como expressão dominante de uma ideia”, disse. 

Sabrina foi procurada pelo Estado, mas não respondeu às tentativas de contato. 

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