Mãe diz que ainda não consegue falar

Ana Carolina vai à missa e visita sepultura de Isabella

O Estadao de S.Paulo

01 de maio de 2008 | 00h00

"Eu sei que vou te amar. Por toda a minha vida eu vou te amar." Ao ouvir os primeiros versos da canção composta por Vinicius de Morais, Ana Carolina Cunha de Oliveira, mãe de Isabella, apoiou os braços sobre os joelhos e chorou. O pai dela, José Arcanjo de Oliveira, amparou a filha com um abraço. Ele foi consolado com um carinho no ombro por Masataka Ota, pai de Yves Ota, assassinado há mais de dez anos. Ana ficou debruçada sobre as pernas até o fim da música. A cena encerrou ontem a missa campal que lembrou o primeiro mês da morte da menina, no Cemitério Parque dos Pinheiros, no Jaçanã, zona norte, onde Isabella está enterrada. A celebração foi organizada pelos administradores do cemitério e reuniu cerca de 300 pessoas. Entre os convidados, estavam amigos e parentes da família Oliveira, moradores da região e pais que possuem filhos enterrados no local. A imprensa ficou em uma área isolada. Ana Carolina chegou acompanhada de familiares e amigos. Rapidamente, ela disse que ainda não tem condições emocionais para falar muito sobre a morte da filha. "Eu vou falar com vocês na hora certa. Na hora em que eu achar que é a hora. Agora, não estou conseguindo." No jardim do cemitério foi montada uma tenda para receber até mil pessoas. A família Oliveira ficou em uma área reservada para ela e seus amigos. Ana Carolina, emocionada, recebeu cumprimentos. Antes da missa, tirou a camiseta branca que vestia, com uma foto da filha, e a colocou no altar. Durante a celebração, o padre Andrés Marengo pediu para a família lembrar de Isabella "na saudade e não na tristeza" e para que a morte dela não acabe com "a alegria da família". Em seguida, todos os presentes ganharam um botão de rosa. Após a celebração, Ana Carolina, cercada por um cordão humano, decidiu visitar o túmulo da filha. No caminho, um jornalista furou o bloqueio para tentar falar com a jovem. Houve empurra-empurra. A mãe de Isabela parou de andar. "Eu não tenho condições de falar. Eu acabei de sair de uma missa. Está parecendo um tumulto e eu não estou agüentando", desabafou. Ana Carolina começou a chorar novamente e foi consolada por Masataka Ota. Os administradores do cemitério aumentaram o número de pessoas que faziam parte do cordão de isolamento e Ana Carolina conseguiu visitar a filha. Lá, ela se agachou, chorou, rezou e deixou quatro botões de rosa no túmulo, que também foi isolado. Ana Carolina ainda fixou no jardim uma boneca de pano com uma placa com a expressão "eu te amo". Com os olhos marejados, a jovem se levantou e, com a ajuda dos seguranças e funcionários do cemitério, conseguiu entrar no carro e ir embora. Na saída do cemitério, José Arcanjo de Oliveira, pai de Ana Carolina, comentou a atitude da imprensa. "Queria que vocês estivessem na minha pele. Parece que isso não tem fim. Isso fica se prolongando (o assédio da imprensa)." Ao ser questionado se acredita que um dia a vida da família voltará ao normal, ele pensou e destacou que só o tempo vai dizer. "A gente sempre tem de dar força um para o outro. É uma angústia muito grande. Tem horas que nós baqueamos, tem horas que tentamos dar força para o outro, mas é difícil... Muito difícil."Desde que Isabella foi enterrada no Cemitério Jardim dos Pinheiros, o movimento no local aumentou 60%, segundo os administradores. Todos os dias, cerca de 300 pessoas deixam flores no túmulo da menina.

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