Mãe relata desespero ao lado dos 2 filhos para escapar de enxurrada

'Teve gente que fugiu pelo mato. O povo do caminhão é que pegava as crianças', contou Edna Aparecida Euzébio, de 34 anos

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2015 | 22h28

“Vi o povo correndo na rua. Gritaram: ‘Edna, a barragem rompeu’. Levei um susto. Quando olhei, vi a lama descendo e a poeira subindo. Aí bateu o desespero. Fui para dentro de casa e peguei meus filhos, o de 1 e a de 4 anos, e corri pela rua com os dois. Nisso, vi um caminhão, que estava cheio de crianças. O povo em cima pegava as crianças que a gente jogava pelos braços. Estava lotado, muita gritaria. Então entrei no caminhão também”, conta a dona de casa Edna Aparecia Euzébio, de 34 anos.

Eram 16 horas naquele momento. O caminhão seguiu por uma parte alta da cidade. Ainda assustada, Edna só tinha um pensamento: a outra filha, de 11 anos, que havia ficado na escola do vilarejo de Bento Rodrigues. “Não sabia dela e ninguém ali sabia de criança nenhuma”, conta. “A gente só pensava bobagens”, disse, chorando. “Eu cheguei em Mariana (no centro da cidade) às 2 horas da manhã. Deixaram a gente na Arena. Depois, foi chegando mais gente”, diz. 

“Teve gente que fugiu pelo mato, correndo, e depois também conseguiu entrar em um ônibus que colocaram para buscar as pessoas. Eu queria notícias da minha filha. ‘Viram ela, ela está bem’, me falaram. Mas a gente não acredita, né? Depois, falaram no centro que tinham achado as crianças e que elas estavam vindo. Não tinha como dormir, não dava. Só encontrei ela lá pelas 8 horas da manhã”, comentava nesta sexta-feira, 6, a dona de casa.

Edna fez parte do primeiro grupo de desabrigados que foi alojado nos hotéis de Mariana pela empresa Samarco, responsável pelas barragens que se romperam. Chegou em uma pousada do centro histórico no começo da noite, onde conseguiu dar banho nos filhos e se recompor. A filha do meio corria pelos corredores, brincando com outras crianças, enquanto a mãe ficava com o caçula, que chorava. “Agora vou dormir um pouco, mas não sei o que vai ser daqui para a frente.”

Lenda. Os moradores de Bento Rodrigues dizem que já haviam ocorrido reuniões com a empresa Samarco para discutir a segurança do local. A “lenda” de que a barragem iria romper um dia já fazia parte do cotidiano da cidade. “Teve gente que contou, na Arena, que não acreditou na hora que avisaram. Mas isso só até o povo ver a poeira chegando e aquela enxurrada vindo de longe.”

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