''Mães de Maio'' cobram solução de inquéritos

Em 70% das vezes, ações contra polícia são arquivadas

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

09 de dezembro de 2008 | 00h00

Quatro tiros. Um em cada pulmão, outro no coração e mais um nas nádegas. O filho de Débora Maria da Silva, de 43 anos, tinha 29 anos quando foi morto por policias. "Ele trabalhava com limpeza urbana. Tinha limpado de manhã o local que ficaria sujo pelo seu sangue naquela noite", conta Débora ao lembrar o episódio ocorrido em maio de 2006, mês que ficou emblemático pelos ataques do PCC e o revide violento por parte da polícia. Relatório do Conselho Regional de Medicina (Cremesp) mostrou que 492 pessoas foram mortas por arma de fogo no Estado na semana de violência, de 12 a 20 de maio daquele ano. O total de mortes inclui todos os tipos de crime, inclusive suicídio, mas significa uma média diária três vezes maior que o normal - 61 por dia ante 20 normais. Além do filho de Débora, que foi morto próximo ao Morro Nova Cintra, em Santos, outras pessoas foram vítimas de ações policiais que, até hoje, ficaram sem explicações. Por causa disso, outras mulheres que passaram por situação semelhante vão fundar o grupo "Mães de Maio" para pedir justiça com o apoio do Movimento de Direitos Humanos."O processo do meu filho é cheio de contradições, ainda não está claro em que condições ele foi morto e nem qual dos nove policiais foi responsável por sua morte", afirma Débora. "Ainda assim, o processo foi arquivado no Ministério Público Estadual."O arquivamento de processos que envolvem mortes cometidas por policias é recorrente como atestou mestrado realizado por Beatriz Affonso em 2004, atual diretora da sede brasileira do Centro pela Justiça e o Direito Internacional (Cejil). Foram analisados 226 casos de execução cometidos por policias de SP, em serviço ou não, e do total, 70% deles foram arquivados pelo Ministério Público "Foi um estudo para avaliar os mecanismos de controle das operações policiais, que se mostraram falhos", diz ao ressaltar que o inquérito é uma forma de avaliar se houve abuso de autoridade.

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