Máfia chinesa movimenta mais de R$ 100 mi em SP

A máfia chinesa movimenta por mês no País, em contrabando e falsificação de CDs, mais de R$ 100 milhões. Os comerciantes e camelôs da colônia são obrigados a pagar taxas de proteção e a comprar mercadorias de grupos chineses que abastecem os mercados do Rio, São Paulo e Paraná. Desde 1999, a máfia seria responsável no País pela morte de 30 pessoas. O avanço dos mafiosos chineses, autores de extorsões e assassinatos, desencadeou uma grande investigação por parte da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), da Polícia Federal e do Ministério Público paulista. O objetivo é identificar os grupos que exploram o contrabando e praticam extorsões; saber o número de ilegais no País; impedir a entrada dos criminosos chineses e colocar na cadeia os responsáveis por ameaças, assassinatos e falsificação de documentos. Além das mercadorias contrabandeadas que chegam ao Brasil pelo Paraguai ou em contêineres pelos Portos de Santos e Paranaguá, os grupos fornecem para os clandestinos passaportes e identidades falsas. Outro esquema da máfia é a legalização da situação de casais clandestinos que compram crianças. Os mafiosos "vendem" filhos de chineses que são registrados em cartórios do Rio como legítimos dos clandestinos. Cada criança custa US$ 5 mil. "Após o trâmite nos cartórios e com a legalização dos documentos para a permanência definitiva no País, as crianças são devolvidas aos verdadeiros pais", informou o delegado Luiz Marturano, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O policial apura uma série de assassinatos praticados na região central de São Paulo pela máfia chinesa. Uma das vítimas, o comerciante Chen Yong Wen, pagou US$ 5 mil pelo "filho". O "dono" da criança, Liu Chao Qin, queria mais. Wen recusou-se a pagar e foi morto. Mataram também seu irmão, que morava na China e estava a passeio na cidade. Qin é o suspeito da morte. Mora no Rio e é apontado como um dos fornecedores de mercadorias contrabandeadas para lojas e barracas de chineses em todo o País. Segundo Marturano, é difícil esclarecer crimes na colônia chinesa. "Testemunhas ou parentes dizem à polícia não entender português. Com o intérprete, falam muito entre si e pouco para a investigação." No caso de Qin, o policial conseguiu com a juíza Elizabeth Lange Aranha, da 1.ª Vara do Júri da Capital, um mandado de busca e prisão. Investigadores foram ao Rio e o juiz Roberto Rocha, da 35.ª Vara Criminal, não autorizou a prisão. "Ele disse que deveríamos ouvir o suspeito por carta precatória. Assim não dá." RouboDas 15 mortes ocorridas em São Paulo, Rio e Paraná desde 1999, só uma foi esclarecida: Eduardo Fortunato dos Santos Neto matou em 4 de janeiro, na frente do Shopping 25 de Março, no centro de São Paulo, a comerciante chinesa Lu Xin Hui, para roubar a bolsa. Os demais crimes tiveram requintes aplicados somente pelos mafiosos chineses: as vítimas foram degoladas, baleadas na nuca ou atacadas com taco de beisebol. Para o promotor Roberto Porto, do Ministério Público de São Paulo, e um dos que investigam os mafiosos, a máfia chinesa é a organização criminosa que mais cresce no Brasil. Os grupos atuantes em São Paulo, Paraná e Rio são da Sun Yen On, de Cantão, e Fu Chin, de Xangai. "Quem não paga, morre", diz Porto. O MP apreendeu em outubro um rascunho da contabilidade de um dos principais grupos, chefiado pelo chinês Tang Kin Fat. Ele oferece proteção aos comerciantes por US$ 10 mil a US$ 50 mil. Peng Sheng e Lin Bingyin, do grupo, extorquiam dinheiro de chineses e coreanos, donos de lojas no Saara, um comércio popular no Rio. Mandavam buquês de flores para os comerciantes e cartas em mandarim, exigindo entre US$ 40 mil e US$ 50 mil para protegê-los. Os dois foram presos. No interrogatório, teriam dado detalhes de como a máfia age. Em 18 de fevereiro, pelo Sedex, receberam um pacote com biscoitos chineses da sorte. Comeram e se intoxicaram. Uma ameaça. As denúncias sobre a ação da máfia chinesa em São Paulo têm chegado ao MP por cartas da comunidade. Comerciantes, cansados de pagar aos mafiosos, procuram polícia e promotores indicando dia e hora em que os criminosos vêm receber. No fim de 2001, o dono de uma avícola entregou aos promotores bilhetes escritos em mandarim exigindo dinheiro para protegê-los. Os cinco mafiosos foram presos. Eles se negaram a prestar declarações. Na Justiça, diziam que não entendiam as perguntas. "Os intérpretes ficam com medo e amenizam o depoimento", diz Marturano. Como exemplo, citou a filha de um casal assassinado em setembro. Zhang Jin Lin, de 53 anos, e a mulher, Uang Li Fen, de 51, foram mortos a golpes de taco de beisebol por dois homens. Xhang Min viu os pais morrerem, foi espancada e fingiu estar morta. "Ela poderia ajudar. Mas ficou na negativa." Os chineses chegam ao Brasil pelo Paraguai. Os clandestinos moram em apartamentos perto da Rua 25 de Março. Pagam aluguéis em dólares e, se têm problemas para se estabelecer em São Paulo, conseguem trabalho em lojas de chineses no Rio e no Paraná. Os policiais federais estão trabalhando na identificação dos grupos. Foi pedida colaboração ao consulado chinês, e são esperados resultados para breve.

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