Máfia das carteiras destruiu provas

Empresário aparece em escutas mandando ?limpar tudo? no escritório; STF mandou libertar 17 do esquema

Bruno Tavares e Valéria França, O Estadao de S.Paulo

17 de julho de 2008 | 00h00

O empresário José Antônio Gregório da Silva, apontado pelo Ministério Público Estadual (MPE) como um dos chefes da máfia das carteiras de habilitação (CNHs), ordenou a destruição de informações que supostamente o incriminavam. Escutas telefônicas feitas com autorização da Justiça mostram que, minutos depois de ser informado sobre a Operação Carta Branca, no começo de junho, Silva pediu a um homem identificado como Teixeirinha para ir até seu escritório e "limpar tudo". O empresário e outros 16 acusados de participação no esquema de venda e falsificação de CNHs foram soltos por decisão do ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), após passarem 43 dias na prisão.A primeira chamada de Silva para Teixeirinha ocorreu às 5h32 do dia 3 de junho, data em que promotores do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) de Guarulhos e homens da Polícia Rodoviária Federal desencadearam a operação. "Seguinte, presta atenção! Tem polícia em casa, tá", adverte o empresário, acusado de ser o responsável pelo derrame de CNHs fraudadas em diversos Estados. "Tem um mandado de busca lá na minha casa, tá, tem de avisar as meninas pra não ir pro escritório e nós precisávamos dar um jeito de limpar aquilo lá cara, não sei como é que eu vou fazer."Apesar do nervosismo, é Silva quem encontra uma solução para o problema. Ele telefona para uma mulher identificada como Carol, possivelmente uma secretária, e diz que é preciso "limpar lá". Pouco mais de uma hora depois do primeiro telefonema, às 6h57, o empresário recebe uma ligação de Teixeirinha. "Deu (certo), nós estamos aqui dentro (do escritório)." As últimas orientações de Silva são: "Então vai, arrepia cara, arrepia! Leva com fio, leva com tudo! Mas corre, corre!"Ao que tudo indica, o empresário teve sucesso ao tentar eliminar provas. Durante a varredura feita em seu escritório, promotores e policiais não conseguiram apreender nenhum computador. As pessoas citadas nas conversas - Teixeirinha e Carol - ainda não haviam sido identificadas e, segundo os promotores, a tarefa será mais difícil a partir de agora."Essa investigação está fadada ao insucesso", lamentou o promotor Marcelo Oliveira, do Gaeco de Guarulhos. "Com o bandido solto, fica mais fácil postergar o processo." Segundo ele, cada réu tem agora o direito de apontar até oito testemunhas de defesa para cada fato criminoso. "Só que alguns dos denunciados respondem a mais de mil falsificações. Ou seja, em tese, podem chamar mais de 8 mil testemunhas."Ao analisar o habeas corpus, o presidente do Supremo argumentou que "a prisão preventiva foi decretada de forma genérica para todos os denunciados, apresentando os mesmos fundamentos para justificar a custódia cautelar (prisão temporária)". O ministro é o mesmo que, na semana passada, concedeu liberdade ao banqueiro Daniel Dantas, um dos 17 presos pela Operação Satiagraha, da Polícia Federal (PF).Defensor do empresário, o advogado Alberto Zacharias Toron disse que não havia justa causa para mantê-lo preso. "Meu pedido baseou-se no princípio de proporcionalidade da decisão em relação à pena máxima que ele pegaria caso fosse condenado por formação de quadrilha." Toron disse desconhecer o conteúdo dos grampos do Gaeco.A Secretaria da Segurança Pública disse que não poderia se pronunciar, pois as investigações correm em segredo de Justiça.

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