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Máfia vende ossos em cemitérios de SP

Dois coveiros foram presos nesta quarta-feira quando tentavam vender um crânio por R$ 150,00 no Cemitério Municipal da Vila Formosa, zona leste de São Paulo. O flagrante comprovou um esquema de comércio de ossos em pelo menos três cemitérios municipais. Coveiros e jardineiros violam túmulos e ossários para furtar e vender o material. Nos cemitérios de Vila Formosa e da Saudade, na zona leste, e Vila Nova Cachoeirinha, zona norte, o fêmur sai por R$ 75,00, metade da "cotação" do crânio com maxilar. No de Nova Cachoeirinha, o esqueleto completo custa R$ 400,00. Nos outros, chega a R$ 1 mil. Os clientes são, em geral, alunos de medicina, odontologia e adeptos de rituais de magia negra.Ao constatar o esquema, a reportagem da Agência Estado alertou a Ouvidoria Municipal e a Superintendência Municipal do Serviço Funerário sobre a máfia dos ossos. Fazendo-se passar por pais-de-santo, o delegado da Ouvidoria, Luiz Rezende Rebello da Silva, e o guarda-civil Cassiano Murphy conseguiram comprar hoje o crânio, vendido pelos coveiros Antônio Florêncio do Santos e Adolfo Manuel Ferreira, ambos de 41 anos.Os dois levaram o delegado e o guarda para o meio do cemitério. Enquanto Ferreira saiu para pegar o crânio, já em um saco plástico, Santos ficou contando o dinheiro entregue pelo delegado. O número das notas foi previamente copiado.Quando recebeu o saco com a "encomenda", Silva deu voz de prisão aos dois servidores. Presos em flagrante por violação de túmulos, ambos podem pegar até 3 anos de prisão."Primeira vez"No 58º Distrito Policial, os coveiros negaram a existência de um esquema de comércio clandestino de ossos. "Essa foi a primeira vez que fiz isso", alegou Ferreira. Ele disse que ficou sensibilizado com a história de que o comprador iria fazer "macumba" com o crânio para salvar a vida de uma criança. Há duas semanas, porém, o servidor tinha oferecido o pedaço de esqueleto para a reportagem.Os dois servidores trabalham há quase 20 anos para o Serviço Funerário. O superintendente da autarquia, Oswaldir Barbosa de Freitas, instaurou um processo sumário, que pode acarretar a exoneração dos dois funcionários. O comércio de ossos será investigado pelo superintendente em conjunto com o ouvidor-geral do Município, Benedito Domingos Mariano.Nas duas últimas semanas, a reportagem esteve em oito cemitérios municipais. Nos três onde existia o esquema, os funcionários afirmaram que os ossos poderiam ser desenterrados e limpos na hora, em plena luz do dia.No cemitério de Vila Nova Cachoeirinha, porém, um jardineiro, que se identificou como Cláudio, pediu um prazo para arrombar os túmulos ou ossários - pequenas caixas de concreto nos muros de cemitérios onde são guardados os esqueletos. O arrombamento, nesse caso, é feito à noite, quando não há segurança.Os lugares violados abrigam, principalmente, indigentes ou pessoas cuja família não aparece há muito tempo. "A gente pega daquele lugar que a família não volta para fazer exumação. Aí dá para pegar todo o saquinho (com o esqueleto completo)."PerigosoCláudio fez questão de valorizar seu trabalho. "É perigoso e por isso não posso fazer barato. Um crânio, R$ 150,00. Se alguém souber... Isso é o pior crime do mundo." O jardineiro explicou como é feita a violação. Na capela de ossos, um coveiro o ajuda a retirar o material. "O coveiro abre a porta, eu pego e divido o dinheiro com ele."Cláudio disse que a violação de ossários é ainda mais fácil. "Eu vou na calada da noite com uma massa de cimento. Tiro o saquinho. Fecho a caixa com a massa. E ninguém percebe nada." Nos demais cemitérios, os funcionários são mais desconfiados. Exigem do interessado que apresente a carteirinha de estudante de medicina ou de odontologia para fechar o "negócio".

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