Cid Barbosa/Diario do Nordeste
Cid Barbosa/Diario do Nordeste

Maior chacina do Ceará deixa 14 mortos na periferia de Fortaleza

Criminosos invadiram uma festa de forró, que teria integrantes da facção criminosa Comando Vermelho, e fuzilaram a esmo as pessoas no estabelecimento

Carmen Pompeu, Lauriberto Braga, Aflaudísio Dantas e Juliana Diógenes, Fortaleza, especial para o Estado

27 Janeiro 2018 | 12h26
Atualizado 29 Janeiro 2018 | 16h35

Um grupo de homens fortemente armados invadiu na madrugada de deste sábado, 27, uma festa no bairro Cajazeiras, na periferia de Fortaleza, e atirou contra os participantes, matando 14 e deixando 18 feridos – oito deles continuavam internados até às 23 h. A maioria das vítimas é mulher e, entre elas, há adolescentes. À tarde, um suspeito foi preso com um fuzil. A chacina – a maior da história do Ceará – estaria ligada à guerra de facções criminosas.

A festa acontecia na casa noturna Forró do Gago. Segundo testemunhas que pediram para não serem identificadas, por volta de 0h30 de ontem, homens chegaram em três carros e desceram disparando a esmo. Eles portariam espingarda calibre 12, pistolas calibre 40 e 9 milímetros e revólveres calibre 38. 

Segundo fontes não oficiais, o evento era promovido por integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV), que nasceu no Rio, tem forte presença nos presídios e domina o tráfico de drogas no Ceará. O massacre é atribuído à facção rival Guardiões do Estado (GDE).

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Dos 14 mortos, oito são mulheres, e sete das vítimas não foram identificadas. Parte das pessoas foi atingida na rua, como Marisa Mara, de 37 anos, que morreu no local. Sandra Silva, mãe da vendedora ambulante, contou que ela morava perto da festa, que é popular na região. Ela estava voltando para casa e parou para falar com conhecidos quando os atiradores chegaram. Outro ambulante, que estava trabalhando na festa, vendendo comida, também foi morto. 

Morreram ainda o motorista de Uber Natanael da Silva, de 25 anos, e seu passageiro, não identificado, que estava chegando no forró na hora dos tiros. Sete feridos foram encaminhados ao Instituto Dr. José Frota, no centro de Fortaleza, e cinco passaram por cirurgia.

“Meu marido estava na calçada vendo o movimento da festa. Ele entrou para tomar água e em seguida começou o tiroteio. Fechei as portas e ficamos dentro de casa escondidos. Foram muitos tiros e gritos de desespero durante pelo menos 15 minutos”, relatou ao Estado uma comerciante que mora perto do forró e não quis se identificar.

Com medo, familiares dos mortos e dos feridos não quiseram conversar com a imprensa. “Eles estão vulneráveis. Estamos conversando com eles para enfrentar o problema e garantir a proteção do Estado, para que eles não venham ser as próximas vítimas”, disse o defensor Emerson Castelo Branco.

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Neste sábado, o clima era de tensão em Cajazeiras. As pessoas se trancaram em casa e apenas a polícia circulava pelas ruas. Pelas redes sociais, vídeos e fotos das vítimas ensanguentadas começaram a circular ainda durante a madrugada. Grande parte dos registros mostrava grupos de mulheres alvejadas na cabeça. Um vídeo atribuído ao GDE, distribuído via WhatsApp, exaltava o massacre, ao som de funk, com imagens dos mortos.

O governador Camilo Santana (PT) classificou o crime de “selvagem e inaceitável”. O secretário de Segurança Pública, André Costa, afirmou que a chacina foi um evento isolado e a relacionou com atos terroristas. “No mundo todo, inclusive nos Estados Unidos, há situações em que se matam 50, 60 pessoas em boates. É uma situação criminosa que foi organizada, que foi planejada e que veio a ser executada. Não há perda de controle (das facções).”

VIOLÊNCIA NO NORDESTE

A maior chacina do Ceará aconteceu dias após a divulgação das estatísticas criminais. O Estado bateu em 2017 recorde de homicídios: 5.134, ante 3.407 em 2016 – alta de 50,7%. O maior aumento foi observado em Fortaleza, que registrou salto de 96,4% no total de homicídios: de 1.007 para 1.978. Em um ano, esta foi a oitava chacina ocorrida na cidade ou na região metropolitana, que deixaram 46 mortos.

A disputa pelo controle do território é considerada fator para o crescimento da violência. Criada há cerca de dois anos, a facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) teria se aproximado do Primeiro Comando da Capital (PCC), na tentativa de enfraquecer seu principal rival, o Comando Vermelho. 

FACCÇÃO LOCAL

A facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) nasceu em Fortaleza para disputar o controle dos presídios e o comando do tráfico de drogas no Estado com o Comando Vermelho (CV). No ano passado, o grupo teria se aproximado do Primeiro Comando da Capital (PCC), na tentativa de enfraquecer seu principal rival.

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Seguindo o modelo da facção Família do Norte (FDN), forte no Estado vizinho Rio Grande do Norte, a GDE é uma organização criminosa menor, mas que recentemente vem ganhando força, arregimentando principalmente menores infratores e jovens adultos criminosos, moradores de áreas periféricas da capital cearense, na faixa etária dos 15 aos 25 anos.

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