Maior risco a morador de rua é a tuberculose

Incidência da doença é 60 vezes superior à do resto da população

Emilio Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

04 Julho 2009 | 00h00

É como uma outra cidade dentro de São Paulo. Estima-se que sejam cerca de 13 mil pessoas, população maior do que a de 58% dos municípios do País. Todos moradores de rua. Carregam mais do que o estigma de serem os não-cidadãos da metrópole, levam o peso de problemas como o alcoolismo, uso de drogas, violência e a incidência de tuberculose até 60 vezes superior à dos brasileiros.Levantamento inédito da Secretaria Municipal da Saúde, feito a pedido do Estado, apontou os principais problemas que atingem os moradores de rua da capital. Álcool e drogas estão no topo da lista. "O uso de drogas é um problema coletivo, faz parte de um processo de inserção no circuito da rua", diz o sociólogo Rubens Adorno, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.Em seguida, e associadas à dependência química, estão as doenças mentais, o que torna a abordagem mais complicada. A saída em São Paulo foi adaptar o Programa de Saúde de Família (ESF) para essa população. Divididas em duas regionais da secretaria, centro-oeste e sudeste, 11.962 pessoas são acompanhadas desde o início do ano por 24 equipes. Na linha de frente dos 456 profissionais envolvidos no atendimento estão os agentes comunitários de saúde.É deles a responsabilidade de percorrer diariamente as ruas do centro, onde se concentra 80% dessa população. Praça da Sé, Parque D. Pedro, Praça da República e Glicério, em qualquer desses lugares os problemas são os mesmos. Além do álcool, drogas e problemas mentais, doenças sexualmente transmissíveis, hipertensão e diabete, e o que mais preocupa os especialistas, a tuberculose. A doença, que tem prevalência de quatro casos para cada 10 mil habitantes no País, chega a ser até 60 vezes mais frequente entre os moradores de rua. Pesquisa realizada por Adorno, com dados de 2005, apontou o resultado alarmante. Faltam estudos mais amplos e recentes sobre o tema, mas a percepção dos especialistas é uma só: trata-se de problema urgente. "Sendo totalmente conservador, diria que hoje a prevalência da doença é, no mínimo, dez vezes maior entre os moradores de rua", diz o epidemiologista Paulo Lotufo, diretor do Hospital Universitário da USP. Alheios às políticas públicas que podem levá-los para longe do centro (mais informações ao lado) e avessos aos albergues, adultos, idosos e crianças vivem em grupos que podem chegar a mais de 20 pessoas. Compõem verdadeiras "famílias". Um deles mora na Praça da Sé há mais de dez anos. Mesmo para os agentes comunitários, sua única identidade é Billy Son, nome que ele mesmo criou.Coberto de pulseiras e correntes trocadas por pequenos favores com camelôs, tênis vermelho e gorro de lã, fala alto e não economiza nos gestos. O riso fácil revela a falta precoce de alguns dentes. Não se importa. Diz ter nascido há 39 anos em João Monlevade, Minas Gerais, e saído de casa há 20, direto para São Paulo, depois de ver o padrasto matar sua mãe. O único problema que admite são crises de convulsão. Nas ruas, prefere ficar longe dos "nóias" - usuários de crack -, mas não se separa do litro de cachaça. "Quer saber se a rua é ruim?", pergunta. "Não é ruim, é triste. Não tem hora para dormir, beber ou tomar banho e ainda tem o rapa", responde, referindo-se à GCM. Ao seu lado, um homem de cerca de 40 anos diz ter se curado rapidamente da tuberculose. O tratamento, que dura seis meses, para ele levou apenas três. "Entrei para a igreja, entende?"Mesmo assim, ele diz continuar vivendo nas ruas e dá a dimensão do desafio das equipes de saúde. "A adesão desses pacientes é o problema mais direto", diz a coordenadora de saúde da região centro-oeste, Márcia Gadargi. Ela explica que a pasta pretende integrar os serviços de saúde voltados para essa população com um cadastro eletrônico. "Mesmo que eles migrem entre as regiões, teremos como acompanhar." Para quem trabalha diretamente com eles o problema é maior. "A principal doença não é o álcool ou a tuberculose, é a situação de rua", diz Dolores do Nascimento, agente comunitária e ex-moradora de rua.

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